17 de março de 2020 – Há exatos 5 anos, vi se materializar bem diante dos meus olhos uma imagem que, até então, eu não esperaria ver nem mesmo nos mais criativos roteiros de ficção científica: as abarrotadas ruas da metrópole onde eu morava, quarta maior da América do Norte, de repente pareciam o cenário de uma cidade fantasma. Com exceção dos indivíduos que prestavam serviços considerados essenciais e daqueles que precisavam de tais serviços, toda a população foi intimada a ficar trancafiada em casa para tentar conter a propagação de um inimigo invisível, universal e devastador: o SARS-CoV-2. Popularmente conhecido como Coronavírus, este organismo microscópico rapidamente viria a ceifar milhões de vidas ao redor do mundo, fazendo-nos viver uma realidade que eu julgava restrita aos livros de História: uma pandemia.
Segundo previam as autoridades, o confinamento absoluto (lockdown) duraria “apenas” duas semanas. Depois disso, tudo voltaria ao normal. As duas semanas logo viraram dois meses e os dois meses, lentamente, viraram dois anos – e o tal “normal” passou a ser sempre precedido por “novo”, um adjetivo que, aos poucos, nos fazia engolir, a seco e sem sal, o fato de que o mundo como o conhecíamos havia ficado de uma vez por todas para trás. Enquanto cientistas buscavam a proteção que livraria nossos corpos da morte, o “novo” mundo se transformava em um lugar que adoeceria nossas mentes. Se fui salva da loucura, é porque, em harmonioso contraponto à ciência, alguns talentosos artistas se inspiraram nessa catástrofe para compor músicas que nos trazem consolo, ânimo, esperança, leveza e até mesmo um pouco de bom humor.
Comento a seguir algumas dessas músicas e ouso apostar que, ao contrário do que pode parecer, ouvi-las passados esses cinco anos pode ser uma experiência surpreendentemente revigorante.
MÚSICA PELOS MEUS OUVIDOS: PANDEMIA
♪ PANDEMIC
Gypsy & Me [Michael Christopher Moore]
Uma montagem de manchetes faladas sobre uma base instrumental como no início de um noticiário, a faixa que abre essa playlist soa como uma viagem no tempo. Os sentimentos despertados por essa volta ao passado são mistos: a incredulidade pelo que estava acontecendo, a apreensão pelo que estava por vir, o entendimento de que os noticiários “normais” foram quase completamente substituídos por “noticiários de emergência”, a impotência da suposta superioridade humana diante da eficácia maligna de um organismo invisível de tão minúsculo, o pesar pelas vidas perdidas, dentre tantos outros. Surpreendentemente, revisitar essas memórias cinco anos mais tarde me traz uma sensação não de angústia, mas de uma estranha quietude, uma quase saudade daqueles primeiros dias que, apesar de aterrorizantes, eram ainda cheios da esperança de que em breve aquele pesadelo chegaria ao fim e tudo voltaria a ser como era antes. Mal sabíamos nós…
[faixa #1]
♪ ALMAFLOR
O Teatro Mágico [Fernando Anitelli, Danilo Souza]
Relutei muito em colocar em uma playlist pública uma música com versos de apoio a um movimento político que não defendo nem nunca defenderei. Reconheço que, não apenas no Brasil, mas também em outros países, a pandemia foi conduzida por alguns governantes com insensibilidade e ignorância estarrecedoras, mas nem por isso compactuarei com ideologias perversas, de variadas naturezas, que têm mergulhado a humanidade em uma degradação moral, a meu ver, infelizmente, irreversível. Considero profundamente lamentável que o mundo tenha se tornado um lugar de extremos tão opostos, mas esse é um assunto que não cabe aqui.
Feito este esclarecimento, dou-me o direito de interpretar essa letra por uma lente que foca apenas em suas palavras de esperança, união, força, coragem, adaptação, perseverança e superação. Lançada em setembro de 2021, quando os estragos causados pela pandemia eram evidentes, Almaflor já reconhecia que o mundo não seria mais o mesmo e que aos sobreviventes de tamanha tragédia restaria ser o que fosse possível. Mesmo assim, ainda trazia muito daquela crença inicial de que nada poderia nos deter. Ouvindo exclusivamente por essa perspectiva, é uma música que de fato pode ajudar a revigorar os ânimos em momentos difíceis.
[faixa #2]
♪ PANDEMIA
Leo Fressato [Leonardo Fressato Santos]
Ah, o humor sarcástico e preciso de Leo Fressato! Raros são os artistas que conseguem fazer humor sem serem absolutamente previsíveis – o que, ao invés de engraçado, me soa um tanto patético – e mais raros ainda os que conseguem recorrer ao sarcasmo sem serem desrespeitosos. Leo Fressato faz dessas habilidades incomuns uma marca registrada de suas composições, sendo Pandemia uma das que mais me divertem com a virada de tom que acontece pouco antes do meio da música. Apostaria que muitas pessoas mundo afora se identificam com os sentimentos, debochadamente, nada altruístas do eu-lírico. E quem pode culpá-las?
[faixa #5]
🆕 ♪ PANDEMIC LOVE
Un5gettable [Joseph M. Cameron, Kyle Joseph Cothern, Zachary Thomas Harris]
O autointitulado rótulo de “boy band de comédia” se prova apropriadíssimo nessa pequena sátira em que um compreensivo rapaz declara querer fazer amor com sua companheira, mesmo que eles tenham que usar máscaras, higienizar as mãos (embora os pensamentos estejam assumidamente “sujos”) e manter dois metros de distância entre si – espaçamento este que, ele garante, não o impede de admirar suas nádegas. Desconheço a fonte exata de inspiração, mas é impossível ouvir essa música sem associá-la a declarações dadas por algumas autoridades de saúde ao redor do mundo; mais explicitamente, sem me lembrar de uma certa ministra da saúde que pediu à população de seu país que usasse máscaras, pulasse beijos e evitasse o contato face a face ao ter relações sexuais, acrescentando ainda que o menor risco de contaminação seria a prática solitária. Mesmo que tivessem embasamento científico, tais orientações soaram risíveis, para dizer o mínimo. Parece que certas pessoas só sabem como é uma relação sexual pelas páginas dos livros de ciências. Risadas à parte, os rapazes do Un5gettable são verdadeiramente talentosos e têm belas vozes!
PS: caso alguém, compreensivelmente, não consiga acreditar, nesta data (17.03.2025), a tal declaração ainda está disponível no site oficial do referido país.
[faixa #6]
♪ QUARANTINE LIFE
Matthew West [AJ Prius, Matthew West]
Embora alguns versos dessa música só soem engraçados para quem está familiarizado com algumas marcas e empresas norte-americanas, a essência dos sentimentos nela expressados é universal: o desejo de poder realizar tarefas tão simples quanto tocar o próprio rosto, abraçar amigos, sair de casa, ir para uma loja, uma cafeteria, um restaurante, uma igreja ou – quem diria?! – até mesmo para o trabalho. Impedido de realizar tais atividades, o eu-lírico perde a noção do tempo, tem que se contentar com um café de baixa qualidade feito em casa mesmo, tenta matar o coronavírus com lenços desinfetantes, passa as noites de sexta comprando papel higiênico pela Internet, considera uma vitória os dias em que se anima a tomar banho, descobre (com surpresa e estranhamento) que sua amada não é loira e admite que, apesar do amor pelas crianças, passar 24 horas por dia com elas é um baita desafio. Com tanta novidade em sua rotina, ele não consegue perder peso, mas está perdendo a cabeça!
[faixa #8]
♪ ME CONTA DA TUA JANELA
Anavitória [Ana Clara Caetano]
Quando parecia que o mundo ia acabar, minhas vozes preferidas dentre todos os artistas vivos massagearam meus ouvidos com uma música que soa como um afago na alma. Na simplicidade e leveza que lhes são características, Vitória Falcão e Ana Clara Caetano acalmam nossos peitos aflitos lembrando-nos de que, mesmo à distância, a força de uma amizade nos ajuda a aceitar a fragilidade e a finitude da vida humana, bem como a desfrutar com o devido tempo os dias que ela nos reserva.
É claro que preferiria que essa pandemia jamais tivesse acontecido, mas, já que é um fato histórico, confesso que, nas minhas fantasias de fã, tenho uma ponta de inveja dos poucos privilegiados que passaram meses cercados por essas vozes que, sem saberem, habitam os lugares mais inalcançáveis do meu ser. ♡
[faixa #9]
♪ LOCKDOWN
Wolf Winters [Wolf Winters]
Confesso que em um primeiro momento a voz profundamente grave e cavernosa de Wolf Winters* me assustou e quase me incomodou um pouco. Mas, passado o estranhamento dos primeiros segundos, me dei conta de que poucas vozes seriam capazes de captar tão bem esse momento tão único da História recente. Como se sua voz já não dissesse o bastante, a letra da música, de sua própria autoria, descreve com maestria as angústias sofridas por grande parte da população mundial durante o lockdown: o isolamento prolongado, a tristeza, o vazio, a sensação de que a vida ficou parada por tempo demais, de sermos prisioneiros enlouquecidos pela vontade de rever os amigos, estar no mesmo lugar e respirar o mesmo ar que eles sem qualquer tipo de preocupação. Enclausurados, perdemos a noção do tempo em dias que pareciam uma eternidade. É certamente a música mais melancólica desta playlist, mas talvez também a mais necessária.
*Jovem cantor cuja participação nas chamadas “audições às cegas” do The Voice Australia, alheiamente à sua vontade, acabou gerando um alvoroço inusitado entre os jurados e a produção do programa.
[faixa #18]
♪ VOLTAR A RESPIRAR
Leo Fressato, com participação especial de Angela Soul [Leonardo Fressato Santos]
“Mas essa música não tem uma única menção explícita à pandemia” – É verdade, não tem, assim como algumas outras músicas aqui nesta playlist também não têm, mas basta ligar os pontinhos. Em 21 de outubro de 2021, cerca de um ano e sete meses depois do início do lockdown no Brasil, quando centenas de milhares de vidas já haviam sido perdidas para um vírus cuja especialidade é sufocar a respiração das pessoas, Leo Fressato, com participação especial de Angela Soul, lança uma música em que o intuito do eu-lírico é fazer seu interlocutor voltar a respirar. Se a leveza da canção não tinha o propósito original de levantar o ânimo dos milhões de brasileiros afundados em uma pesada atmosfera de morte, eu não sei que outro propósito poderia ter – e este seria um dos (talvez muitos) casos em que eu me daria o direito de interpretar uma obra de maneira que faça sentido para mim. Além disso, em um mundo quase literalmente coberto por chocolate (🤢), uma música que tem um verso declarando querer ser doce de leite pro meu coração me dá motivos de sobra para colocá-la em quase qualquer playlist que eu queria criar. 😋
[faixa #19]
♪ SAVING GRACE
Kodaline [Corey Sanders, Jon Maguire, Jason Boland, Mark Prendergast, Stephen Garrigan, Vincent May]
Dentre todas as músicas aqui comentadas, é verdade que esta não foi originalmente composta em referência à Covid-19, mas a quaisquer momentos de tribulação, cansaço, fragilidade, medo, desesperança, solidão ou incerteza sobre o futuro, em que aquele que sofre precisa ter ao seu lado a presença e o apoio de alguém que seja sua “graça salvadora”. Fica fácil inferir por que, sem que a banda pudesse prever, Saving Grace acabou sendo uma trilha sonora tão apropriada para a pandemia, que seu clipe oficial é integralmente composto de vídeos enviados por fãs mostrando o que estavam fazendo para lidar com aqueles tempos tão difíceis.
⚠️ Aqui é preciso fazer um esclarecimento importantíssimo, especialmente para cristãos: a vontade de associar esse título à Graça Salvadora proveniente de Deus pode ser tentadora, eu sei, mas este não é o sentido pretendido pelos compositores. No contexto da música, “saving grace” refere-se não ao conceito teológico, mas à expressão idiomática que, em inglês, quer dizer que uma qualidade de algo ou alguém é a única parte deste algo ou alguém que o impede de ser totalmente ruim e/ou inútil. Em português, diríamos, por exemplo, “aquela salada foi a única salvação do almoço”. Quer dizer, todos os outros pratos estavam horríveis!
O que essa letra nos apresenta, portanto, é uma das mais belas e profundas relações que duas pessoas podem experimentar entre si. Nela, o eu-lírico promete ser a graça salvadora de seu interlocutor, bem como expressa o desejo de que tal compromisso seja recíproco. A conexão que os une é tão profunda que quando um deles está se sentindo miserável, sem enxergar qualquer virtude em si, é no outro que ele se descobre livre de ser um completo desastre. Ou seja, o outro é parte dele mesmo. Não à toa, esta é uma das minhas três músicas preferidas do Kodaline e a última nesta playlist. Para mim, ela é tão forte que depois dela só cabe o silêncio.
[faixa #20]
MÚSICA PELOS MEUS OUVIDOS: PANDEMIA
FAIXA EXTRA [indisponível no Spotify]
♪ PROFESSORA NA PANDEMIA
Stella Nicolau, com participação especial de Felipe Bemol [Stella Nicolau]
Embora eu ouça com mais frequência as músicas comentadas acima, é provavelmente correto afirmar que nenhuma outra letra referente à pandemia descreveu tão bem a rotina que eu estava vivendo durante os aproximadamente dois anos de lockdown rigoroso na cidade fantasma que eu então habitava. A diferença é que enquanto a personagem dessa história canta as aflições vivenciadas pelos professores, eu poderia cantar as aflições vivenciadas pelos alunos. De certa forma, era a mesma dor, sofrida por papéis diametralmente opostos. Minha frustração era que, com uma exceção apenas, de nada adiantaria eu apresentar essa música para os meus professores nem colegas de turma, pois eles não conheciam uma única palavra em português. Se entendessem, aposto que se sentiriam fielmente retratados.