▶ Por razões que são reveladas a seguir, este post foi criado em branco em 24 de junho deste ano e atualizado de fato em 6 de setembro de 2026 — data em que um dos maiores e mais singulares fenômenos musicais que o mundo já teve a sorte de conhecer completaria 55 anos.
▶ Dedicado a David Houston, meu fiel companheiro nas minhas mais inusitadas aventuras; Julia Volker, minha inspiração para montar a playlist Dolores Forever; Anna Flores, que torceu entusiasticamente para que eu conseguisse concretizar a repentina ideia que acabou dando origem a este (não tão) diminuto memorial particular (e acho que também para que eu conseguisse concluí-lo até esta simbólica data); Des e Martin, os dois cavalheiros irlandeses que de fato tornaram possível a execução da tal ideia; e a todos fãs de Dolores O’Riordan e da banda The Cranberries ao redor do mundo.
Desde que criei a playlist Dolores Forever, sempre quis escrever algumas palavras, por mais breves que fossem, sobre como essas músicas arrebatadoras se tornaram uma parte enorme da minha pequena vida; mas, justificada pela plena ciência da minha mais absoluta irrelevância, mantive esse desejo dormindo em paz pelos últimos cinco anos. Ora, o que uma fã tão invisível quanto eu teria a dizer sobre a obra já amplamente consagrada de uma das estrelas mais brilhantes da música internacional?
Uma recente e, em parte, inesperada experiência que vivi, no entanto, fez com que aquela vontade adormecida fosse abruptamente acordada, me impelindo a tentar, antes que seja tarde demais, oferecer minha ínfima contribuição para que, ao menos no meu pequeno universo, essa voz que alcançou as partes mais profundas da minha alma continue sendo ouvida em alto e bom som, literalmente.
Parece um ambicioso devaneio, eu sei. Mas, para minha incredulidade, não é exatamente raro me deparar com alguém que diz nunca ter ouvido falar de Dolores O’Riordan, nem sequer de sua renomada banda, The Cranberries. “O mundo está mesmo perdido”, fico pensando enquanto me recolho à minha completa incapacidade de consertar um único e minúsculo pedacinho dele.
Mas não é sobre salvar o mundo! Ao registrar parte dos momentos em que Dolores, mesmo sem saber, me abraça com sua fiel e aconchegante companhia, estou salvando minhas próprias memórias, antes que o tempo, inevitável e implacável, venha desbotá-las, aos poucos ou de uma vez. Agora, se apesar de completamente pessoais, essas memórias puderem despertar em alguém o interesse em conhecer melhor o fascinante legado dessa artista tão única, cujas canções por tantas vezes têm sido minha graça salvadora,* sentirei que também eu terei deixado um pouco de beleza no mundo.
*Conforme já expliquei aqui, na língua inglesa, o termo “graça salvadora” é uma expressão idiomática que diz respeito à única qualidade que impede algo, alguém ou uma situação de ser totalmente ruim e/ou inútil, não exclusivamente ao conceito adotado pela teologia Cristã.
O SÚBITO VAZIO
15 de janeiro de 2018: alheia às notícias das últimas horas, segui minha rotina normal e fui para a academia. Enquanto me exercitava em um dos aparelhos, vi em uma das TVs um rosto que de longe parecia o de uma atriz brasileira cuja carreira eu gostava de acompanhar. Interrompi a série para ir ver de perto qual novo trabalho ela estaria divulgando. Ao me aproximar, percebi que era, na verdade, um rosto ainda mais familiar aos meus olhos e, sobretudo, ao meu coração. Na tela, Dolores O’Riordan — a quem eu, na minha intimidade imaginária, sempre me referi simplesmente como “Dolores”, mas que boa parte do mundo só reconhece depois de apresentada como “a vocalista dos Cranberries”, banda irlandesa internacionalmente conhecida por sucessos como Zombie, Linger e Dreams, dentre outros que muitas pessoas, distraídas que são, sequer percebem que fazem parte da trilha sonora de suas vidas. Animadíssima com a possibilidade de que ela estivesse anunciando um show no Brasil, me apressei para ler a manchete abaixo da foto. Naquela fração de segundo, algo deixou minha vida e ela de repente pareceu vazia… Em circunstâncias até então ainda não esclarecidas, seu corpo havia sido encontrado na banheira de um hotel em Londres.
Ela nunca soube, mas fez parte da minha vida desde os últimos anos da minha adolescência até aquele fatídico dia. Ela nunca saberá, mas continuará a fazer parte da minha vida até o fim dos meus dias.
OS ANOS ACADÊMICOS
Queria poder me lembrar apenas do janeiro de 1994. Eram outros tempos. Antes da popularização da Internet, as informações, incluindo as novidades musicais, demoravam meses, às vezes anos, para cruzar as fronteiras entre os países. Por isto, foi só onze meses depois de ter sido lançada na Irlanda que Linger chegou às rádios brasileiras; à época, minha principal fonte de consumo de música. A partir dali, os Cranberries ficariam em minha vida para sempre — todos eles, pois acredito veementemente que o trabalho de um grupo musical é sempre fruto da soma dos talentos individuais de cada um de seus integrantes, mas não tenho como negar que minha conexão com a dona daquela voz ao mesmo tempo tão potente e tão suave se tornou tão especial e única que sequer encontro uma palavra para descrever. E, modéstia à parte, sei que não é por pobreza do meu vocabulário, mas porque alguns sentimentos simplesmente transcendem todas as palavras que os mais ricos idiomas já puderam inventar.
Naquele mesmo ano, eu estudava para entrar na minha primeira faculdade e havia acabado de comprar meu primeiro CD player. Obviamente, o álbum Everybody Else Is Doing It, So Why Can’t We? foi um dos primeiros a compor minha pequena coleção desses objetos hoje obsoletos. Além de Linger e Dreams, que eram grandes sucessos radiofônicos, meu 1994 foi fortemente marcado por Put Me Down.
De 1995 a 1997, os felizes dias em que cursei minha primeira faculdade foram frequentemente acompanhados dos álbuns No Need To Argue e To The Faithful Departed — e é com profundo pesar que, para não triplicar o número de parágrafos nesta postagem, por ora resistirei à imensa tentação de falar sobre a relevância de algumas de suas músicas para mim. Avançando vinte e cinco anos no tempo, entre 2020 e 2022, os penosos dias em que eu cursava minha quarta e (assim espero) última faculdade tiveram seus raríssimos e curtíssimos intervalos de alívio visitados pelos álbuns Something Else e In The End, juntamente com a faixa Losing My Mind, do álbum Roses, cujos versos soavam como a perfeita síntese da insanidade que me foi imposta por aquela instituição.
Ou seja, Dolores esteve comigo desde o primeiro até o último dia dos meus doze anos (não consecutivos) de vida acadêmica. Curiosamente, o primeiro deles foi vivido na minha cidade natal, onde eu a ouvi pela primeira vez e agora registro essas memórias; o último, sem que eu jamais tivesse imaginado naquele longínquo passado, em Toronto, cidade com a qual ela mantinha uma forte conexão em virtude de seu casamento de vinte anos com o canadense Don Burton, com quem ela teve três filhos.
A “CIDADE DO SOL”
Entre meus muitos endereços, morei por dez anos em uma metrópole famosa por suas temperaturas tão altas que poderia ser apelidada de “Cidade do Sol” (embora essas palavras me soem poéticas demais para descrever aquele caos). Seu calor característico, no entanto, era o menor dos problemas quando comparado à brutalidade da violência urbana, bem como à grosseria e desonestidade generalizadas que, de maneira explícita ou sutil, atingiam todas as classes sociais daquela população, dos mais miseráveis aos mais abastados. Conviver vinte e quatro horas por dia, todos os dias, com todo aquele medo e desgaste social constantes pesou ainda mais questões que, desde que me entendo por gente, inquietam minha alma. Em vários aspectos, eu estava morrendo por dentro, como uma frágil plantinha que seca lentamente… ao sol! Nos meus devaneios de fã, parecia que Dolores havia composto Dying Inside e Dying In The Sun só para me confortar, como uma amiga íntima que, atenta às minhas dores, soubesse exatamente quais melodias e palavras cantar enquanto me envolvia em um aconchegante abraço.
Naqueles longos, ensolarados e escaldantes dias de eterno verão, o som das águas de Them era um refrigério tão real que eu quase podia sentir em minha pele o frescor dos pingos que correm discretos entre as batidas dramáticas e cirurgicamente precisas da bateria de Fergal Lawler. Ainda hoje, toda vez que a ouço parece que estou realizando meu desejo de que a música extrapolasse as ondas sonoras e existisse também em matéria palpável na qual eu pudesse mergulhar e ali me esquecer do resto do mundo. É curioso como uma canção tão densa e tensa pode me fazer tão bem! [Efeito este, diga-se de passagem, alcançado também por muitas outras de suas sofisticadas composições.]
Esse refrescante bem-estar que hoje está a poucos cliques de distância chegou para mim via encomenda internacional, na Treasure Box — compilação contendo as sessões completas de gravações para os quatro primeiros álbuns da banda (e eu nunca consegui entender por que cargas d’água Them havia ficado de fora do primeiro!). Juntamente com ela, vieram também os álbuns da carreira solo de Dolores. O que eu jamais poderia imaginar era que um dia eu viria a morar a poucas horas do lago retratado na capa de um deles, muito menos que aquela paisagem que lhe serviu de acolhedor refúgio mais tarde se revelaria para mim como o lado do deserto que me faltava conhecer: as longas, escuras e congelantes noites de interminável inverno.
O DESERTO [CON]GELADO
Nas reviravoltas que a vida dá, depois de dez anos caminhando sobre as areias de quase 40 graus positivos da “Cidade do Sol”, meus pés desembarcam subitamente na neve de quase 40 graus negativos que cobria o solo canadense, acreditando que ali teriam sua morada definitiva. Os quatro primeiros meses naquele lugar foram tão abarrotados de compromissos que não consegui ouvir In The End, o último álbum de estúdio da banda, logo que foi lançado (em abril de 2020, portanto, após a morte de Dolores). Mas, apesar de cheios de atividades, os dias estavam ainda cheios também da esperança de que em breve estaríamos plenamente estabelecidos naquele país que prometia ser tão mágico quanto um castelo conto de fadas. Acontece que todo castelo tem seus calabouços — e foi essa a verdadeira face que aquela terra não demorou a mostrar: uma prisão revestida de ilusões, onde a alma rapidamente ficaria gelada e a vida, congelada. Poucos meses depois, já ciente de ter caído na maior de todas as armadilhas escondidas nos lugares por onde passei, caminhava pelas ruas de Toronto quando finalmente pude ouvir aquele álbum. Mal pude acreditar quando a última faixa, não por acaso também intitulada In The End, começou:
“Ain’t it strange when everything you wanted was nothing that you wanted in the end?”
[“Não é estranho quando tudo que você queria, no fim, nada é do que você queria?”]
Mais de dez anos de planejamento para me mudar para aquelas terras e, em menos de dez meses por lá, aquele país levou quase tudo de mim: minha casa; meu carro; não as roupas, mas as pouquíssimas joias que eu tinha, incluindo um presente que David havia me dado em nosso aniversário de quatro anos de casamento e que eu nunca havia usado, primeiro porque tinha receio de ser roubada (ou, pior, agredida) na “Cidade do Sol”, depois porque estava aguardando uma ocasião especial; minha liberdade; quase todas, senão todas, as minhas convicções; o convívio presencial com as pessoas que mais amo; tantos outros valores intangíveis e, por fim, o meu amado filhote de quatro patas, meu mais precioso tesouro. Quanto ao meu espírito, foi estilhaçado em pedaços que até hoje tento juntar. Mas era tarde demais! Voltar para o Brasil não traria de volta nada do que já havia sido perdido. Enquanto eu de novo sentia que estava morrendo por dentro, o jeito era continuar por lá, insistindo em acreditar que um dia todas aquelas promessas seriam cumpridas.
A CRIAÇÃO DA PLAYLIST
Inúmeras vezes eu quis desistir de tudo, tudo! Entre os poucos outros oásis que me traziam algum alívio estavam as carinhosas e providenciais mensagens de Julia Volker, um dos meus seres humanos preferidos no mundo, então separada de mim não apenas por longos sete mil quilômetros, mas também por inconvenientes seis horas de fuso horário. Cada vez que ela me perguntava “como você está?” (e ela é uma das raríssimas pessoas que fazem essa pergunta verdadeiramente querendo ouvir a resposta, seja ela qual for) eu me lembrava de The Pressure, pois ao menos por alguns instantes todas as minhas preocupações se dissipavam de mim e eu me sentia tão melhor, apesar de todo aquele imensurável peso que tanto sobrecarregava meus ombros. As limitações geográficas não permitiam, mas como eu desejava que pudéssemos nos encontrar! De novo, foi Dolores que me trouxe o conforto que não podia ser consumado. Naqueles longos e rigorosos invernos, ao ouvir The Glory, de alguma forma eu sentia Julia perto de mim, quase me aquecendo com seu abraço — e foi assim que tive a ideia de criar uma playlist a fim de lhe apresentar, para além dos sucessos óbvios, essas canções que tanto mexem comigo. 🥹
Por coincidência ou por destino, era véspera do que teria sido o aniversário de 50 anos de Dolores. Por isto, decidi que minha playlist teria 50 músicas e, em 6 de setembro de 2021, a publiquei em um perfil do Spotify que, por questões técnicas, acabei desativando. Na descrição, escrevi simplesmente: “In loving memory of a voice that has reached the deepest parts of my soul” [em saudosa memória de uma voz que alcançou as partes mais profundas da minha alma]. Compartilhei o link com apenas quatro pessoas. Poucos meses depois, em 15 de dezembro, o lançamento póstumo Angela’s Song (tema do filme Angela’s Christmas e um motivo a mais para aumentar minha vontade de conhecer Limerick) me arrebatou logo na primeira audição e, assim, a playlist acabou com 51 faixas (se bem que uma delas aparece em duas versões, portanto, ainda dá pra defender que são 50 😇). Tempos depois, recriei a playlist no meu perfil atual, compartilhei com as mesmas quatro pessoas e voltei para minha rotina. Há cerca de um ano, notei por acaso que ela ganhou, organicamente, algumas dezenas de seguidores. ☺️
PS: eu juro que tentei, por três ou mais vezes e em diferentes fases da vida, gostar de pelo menos uma música do Science Agrees, álbum do trio D.A.R.K. — projeto paralelo de Dolores em parceria com Olé Koretsky, seu namorado à época de seu falecimento. Mas não adianta… Só consigo achar que é apenas um imenso desperdício do incomensurável talento de Dolores (e já não tenho a menor disposição para mais uma tentativa). [#ProntoFalei 😬]
O CHORO MAIS ÚNICO DE TODA A MINHA VIDA
Em 2024, por motivos de força maior, tive que ir ao Brasil. Como válvula de escape para o turbulento cenário que eu estava prestes a enfrentar, ousei tirar da gaveta um antigo desejo: “aprender a tocar” bateria (aspas porque é ambição demais para uma pessoa completamente desprovida de dons musicais). Logo na primeira aula, entendendo que depois do meu mini intensivo eu voltaria para o Canadá e, na melhor das hipóteses, continuaria a estudar sozinha, a professora julgou que seria importante eu aprender a ler partituras e, com paciência e didática extraordinárias, sempre unindo a teoria com a prática, começou a me ensinar o bê-á-bá daqueles símbolos mágicos que até então eu via, mas não entendia. Alguns dias depois, na pausa de uma série de exercícios já relativamente mais complexos, ela olha pra mim e pergunta: “você tem noção de que música a gente está tocando aqui?”. Curiosamente, foi olhando para a partitura, não “tocando”, que me dei conta de que era nada menos do que Zombie, uma das músicas que eu tinha dito para ela que, se eu conseguisse tocar um dia, zeraria minha vida! Pela primeira — e, até hoje, única — vez, eu chorei, compulsivamente, de alegria! 🥹
Eu, me atrevendo a tocar uma introdução simplificada de Zombie na bateria, acompanhada no baixo por Heloísa “Miyagi” Helena, uma das melhores professoras que já tive a o privilégio de conhecer. [“Miyagi” é um carinhoso apelido que eu lhe dei por conta de seus surpreendentes métodos de ensino]
Para limpar os ouvidos da minha evidente inaptidão musical, eis aqui a canção mais famosa dos Cranberries (e que, para mim, é uma das duas melhores músicas de protesto de todos os tempos):
O LAGO BIG BALD
De volta ao Canadá, logo começamos a planejar nossa saída definitiva daquele deserto (con)gelado. Antes de deixá-lo de uma vez por todas, no entanto, David, sempre atento e desejoso de realizar todas as minhas vontades, se lembrou de que ainda não tínhamos ido ao lugar que eu mais queria conhecer em toda a vasta extensão daquele território: o Lago Big Bald, retratado na capa do álbum No Baggage, e em torno do qual Dolores estabeleceu seu lar durante os anos em que morou naquele país.

9 de fevereiro de 2025: em pleno inverno (afinal, eu queria ver o lago congelado, como na foto), alugamos um carro e lá fomos nós! Sabíamos de antemão que não conseguiríamos identificar em qual casa exatamente ela morou, pois, em respeito à privacidade dos atuais proprietários, os habitantes daquelas redondezas não divulgam essa informação. Mas poder pisar meus pés sobre o mesmo lago que outrora foi, em parte, o quintal de sua casa já me parecia bom o suficiente para satisfazer meus inocentes desejos de fã, e tal pequena aventura não haveria de ser tão difícil assim…
…como se alguma dentro daquelas fronteiras inóspitas fosse fácil! Enquanto todos os lagos que eu já havia visitado anteriormente tinham contornos minimamente regulares, o lago Big Bald parece uma enorme e desleixada mancha de tinta sobre o chão, mas seu formato exótico era o menor dos obstáculos para chegar até suas congeladas águas. Passamos algumas horas ziguezagueando por suas margens sem encontrar um único acesso que não cruzasse os limites de uma propriedade particular. Mesmo que tais limites fossem invisíveis (poucas casas na América do Norte têm barreiras concretas ao seu redor) e que quase todas as casas estivessem vazias devido ao inverno rigoroso, por respeito, ultrapassá-los não era uma opção para nós. Frustrados e exaustos, decidimos voltar para casa.

Fonte: Google Maps
Poucos minutos depois de começar a fazer o caminho de volta, avistamos entre duas propriedades uma área que parecia grande o bastante para conseguir passar por ela sem invadir a privacidade alheia. Combinamos que se conseguíssemos encontrar um lugar para estacionar o carro, o que é pouco provável em ruas estreitas e entulhadas de neve, aquela seria nossa última tentativa. Ao nos aproximarmos, para nossa surpresa, por trás de todos aqueles enormes montes de neve que víamos de longe, havia — plano, limpo, vazio e público — um espaço suficiente para estacionar dois veículos.
Com um pouco mais de sorte e um tanto de observação, encontramos um caminho seguro para chegar, enfim, ao lago não apenas congelado, mas também coberto por uma generosíssima camada de neve. Não tinha como saber o quão perto ou longe eu estava da casa onde Dolores morou, mas era certo que, mesmo que a partir de outro ângulo, eu estava diante da paisagem que por muitos anos ela via através de suas janelas, às vezes enquanto compunha algumas de suas mais belas melodias. No longo tempo que ali fiquei silenciosamente contemplando aquele cenário, apesar dos muitos graus negativos ao meu redor, dentro de mim, meu coração e minha alma se sentiam abraçados por um cobertor macio e quentinho.

A trilha sonora da viagem, obviamente, não poderia ter sido outra senão a playlist que eu havia criado alguns anos antes. Na volta pra casa, porém, aquelas escuras e desertas estradas pareciam especialmente convidativas para ouvir, no volume máximo e repetidas vezes a canção que, para mim, registra a mais intensa interpretação de Dolores: sua participação especial na dramática Senza Fiato, da banda de rock italiana Negramaro. Ao fim daquela noite, nada mais eu tinha para fazer naquele país.
A essa altura, está claro que se eu fosse citar todas as vezes em que Dolores tem me feito companhia, poderia escrever um livro — o que, a propósito, quem sabe pudesse suprir uma falta grave nas estantes, físicas ou virtuais, das livrarias de todo o planeta, pois, pelo menos até onde é do meu conhecimento, nenhum livro tendo sua obra e/ou vida como tema central foi publicado ainda. Mas, dada a minha pequenez, passo a narrar, enfim, a inesperada aventura que me fez querer registrar essas memórias.
REFLETINDO SOBRE A VIDA E A MORTE*
23 de junho de 2026: depois de outras tantas reviravoltas da vida, tenho a chance de visitar seu túmulo.
[…]
“Que ironia! Uma pessoa que se tornou tão grande e tão especial de repente vem parar em um lugar tão pequeno e tão singelo” — foi este o primeiro pensamento que me veio à mente quando me deparei com o tamanho e a discrição do cemitério de Caherelly. Como pode ser que alguns (ou muitos) ainda não tenham compreendido que a morte iguala todos nós?

Algumas contradições me cercavam aquele momento.
Sob a forte luz do dia, com os meus pés sobre o vívido verde da grama que agora cobre o solo onde estão seus desbotados restos mortais, me lembrei da noite em que peguei em suas mãos — a emoção mais única e indescritível que já senti!
Só mesmo nos meus mais ousados delírios de fã eu teria imaginado tal façanha! Fora deles, em 1994, quando os Cranberries se tornaram populares nas rádios brasileiras, o país simplesmente não estava nas rotas de suas turnês; muito menos estava nas minhas po$$ibilidades a expectativa de me mover para qualquer lugar além das fronteiras da minha desimportante cidade natal. Dezesseis anos depois, para minha surpresa, a banda anunciou a primeira apresentação no Brasil, no mesmo bairro onde eu então morava na “Cidade do Sol”! Em 28 de janeiro de 2010, lá estava eu, colada na grade, vendo Dolores cantar a pouco mais de dois metros dos meus incrédulos olhos! Em dado momento, quase tive um infarto, de frustração, quando, ao descer do palco para cumprimentar o público, ela caminhou no sentido oposto ao meu. Ao fim do espetáculo, voltei para casa obviamente eufórica por ter estado tão perto daqueles quatro artistas que sempre estiveram tão perto de mim, mas com as imagens do show mais inesperado e improvável da minha vida parcialmente tingidas por um toque de tristeza. Poucos dias depois, para minha surpresa maior ainda, mal pude acreditar quando eles anunciaram que estariam de volta em poucos meses. Em 12 de outubro, de novo colada na grade, só que dessa vez sabendo em qual sentido ela caminharia ao se aproximar da plateia, me posicionei estrategicamente e consegui, além de pegar em suas mãos, também tocar na tatuagem que ela tinha em homenagem a Taylor, seu filho primogênito. De novo, quase infartei! Mas dessa vez, de absoluto êxtase!
A vida e suas coincidências, felizes ou tristes… Outros dezesseis anos mais tarde, ali estava eu, não fascinada em frente a um palco que amplificava suas mais belas melodias, mas impotente diante de um túmulo que agora confina sua voz ao mais irreversível silêncio. Como é típico de mim, logo estava tomada também pelos mais intensos sentimentos, incluindo uma espécie “quase-mágoa” que até hoje perturba meu pobre coração: “por que, Dolores, por quê”?
Os rumores da época levantavam suspeitas que dividiam meus pensamentos. Apesar de saber de algumas de suas angústias, incluindo uma tentativa de pôr fim a seus sofrimentos, a parte de mim que conhece, através de suas músicas, o comovente amor que ela nutria por seus filhos tinha certeza de que esse sentimento lhe daria forças para continuar aqui por eles por toda a eternidade se possível fosse. Por outro lado, a parte de mim que dia e noite experimenta dores incompreendidas e não raras vezes também considera desistir de tudo se perguntava: mesmo que ela tivesse escolhido, quem poderia julgá-la? Mas quando o laudo finalmente saiu, um ano depois, a revelação de que foi mesmo um acidente reacendeu em mim uma pergunta secretamente sufocada. Entrar em uma banheira depois de ingerir bebidas alcóolicas? Pode até render bonitas cenas de filmes, mas, na vida real, é claro que isso não tem como dar certo! De novo, os ecos daquele grito ficavam murmurando dentro de mim: “por que, Dolores”?
O que se esconde por trás da minha aparente rebeldia é, na verdade, minha indomável dificuldade em me conformar com o fato de que às vezes nada nos resta a fazer senão aceitar engolir, sem a menor pitada de sal nem sequer uma gota de azeite, o que alguns chamam de “destino” — muitas vezes, um ladrão sorrateiro que na calada da noite rouba de nós os nossos mais preciosos bens.
Apenas 46 anos! Tanto ainda ela poderia ter vivido! Mas eis que chega o destino e surpreende a todos nós com suas implacáveis e inescapáveis garras. Em um piscar de olhos, os que lhe eram íntimos foram privados de todo amor que ela tinha para lhes dar; seus milhões de admiradores ao redor do mundo, de todas as novas belas músicas que seu talento e sensibilidade ímpares teriam composto para acalentar e embelezar nossas existências. Meu único consolo vem da observação há tempos feita por outro artista igualmente talentoso e também arrancado de nós cedo demais: “os bons morrem jovens” — e nem é tão estranho assim, mas simplesmente o jeito que o tal destino encontra de poupá-los das novas doenças, novas guerras e todas as outras novas desgraças que esse mundo insano não para de produzir. Para todos que fomos tocados por sua Arte, restou a lancinante dor da sua ausência. Para ela, chegou, enfim, a libertação das dores que carregava em seu próprio nome.
*Referência à frase inscrita no banco doado pela família O’Riordan ao cemitério de Caherelly.

A PLACA MEMORIAL
Ao voltar minha atenção para o túmulo e para as lembranças nele deixadas por algumas outras pessoas que também passaram por ali, me dei conta de que, apesar de ter planejado aquela visita, nem de longe cogitei fazer algo semelhante — e tal pensamento não teria mesmo sido natural a mim. Apesar de entender que são atos de carinho, no meu raciocínio cartesiano, não vejo sentido em homenagens póstumas; afinal, por motivos óbvios, o homenageado não pode mais apreciá-las. Além disso, não teria tido a menor ideia do que oferecer como tributo a uma artista da estatura de Dolores O’Riordan. Mesmo assim, fiquei um pouco sentida pela minha falta de criatividade. Mas, como nada mais poderia fazer a esse respeito, cerca de uma hora depois, voltamos para nossa temporária casa sobre rodas, não sem antes ir ver de perto o mural que retrata a cidadã mais ilustre de Limerick.
Estar naqueles lugares mexeu tanto comigo que no fim da noite, em um ato extremamente raro da minha parte, ao som de When You’re Gone, uma das canções cantadas no funeral de Dolores, postei duas fotos daquelas experiências no status de um popular aplicativo de mensagens. Lembrei-me da minha playlist e resolvi compartilhar o link para ela também.
Quando David viu meu status, somente no dia seguinte e faltando apenas quinze minutos para um compromisso inadiável que eu tinha, ele olhou para mim e disse: “Hmm, sabe o que teria sido legal? [pausa dramática] Fazer um ‘quadrinho’ com a capa da playlist para deixar lá no túmulo”.
O típico insight tão genial quanto óbvio! Como eu não pensei nisso antes?! Isso, sim, fazia sentido deixar ali: algo não exatamente para Dolores, mas que pudesse contribuir, mesmo que timidamente, para que sua voz continue ressoando pelo mundo. É claro que as pessoas que chegam àquele lugar não precisam que alguém lhes apresente Dolores O’Riordan. O cemitério de Caherelly está longe, beeem longe, de qualquer local minimamente turístico. Para chegar lá, é preciso querer muito ir visitá-lo. Ou seja, não acredito que “fãs” que “não associam o nome à pessoa” se prestariam a tamanho esforço. Mas, por este mesmo motivo, ouso imaginar que aqueles que de fato vão até lá são justamente os possíveis interessados em encontrar em uma só playlist a essência de sua obra, dos grandes sucessos comerciais aos lados B’s.
Começou ali uma luta contra o tempo! Era pouco mais de meio-dia de uma quarta-feira. Tínhamos planejado voltar para Dublin logo depois do almoço; este, por sua vez, seria depois do meu compromisso, previsto para acabar cerca de uma hora e meia mais tarde. O “quadrinho” que David havia mencionado era uma espécie de porta-retrato personalizado com capas de outras das minhas playlists que eu havia feito para presentear algumas pessoas queridas. Em todos os casos anteriores, eu criei as imagens livremente e depois encomendei molduras a partir de suas medidas específicas, um trabalho que normalmente demora alguns dias para ficar pronto. Era preciso simplificar a ideia e inverter a ordem dos passos: primeiro encontrar algum tipo de moldura já pronta para, a partir de suas dimensões, criar a imagem e só depois imprimi-la. Entrei para minha reunião e David foi para o centro de Limerick procurar um loja de molduras e um lugar onde imprimir fotos com qualidade minimamente decente.
Quando nos reencontramos quase às 14h, ele me conta que, em poucos minutos de caminhada, se deparou um centro fotográfico que, para nossa total surpresa, imprimia fotos em materiais próprios para ocasiões fúnebres. Jamais teríamos imaginado essa solução, até porque nunca havíamos visto algo sequer semelhante nos centros fotográficos das diversas metrópoles onde já moramos. A placa memorial em granito, o material mais resistente e que dura por séculos, demandaria no mínimo uma semana para ser produzida. Nosso voo de volta era no sábado. Uma alternativa seria fazê-la em ardósia, um material que, embora não tão resistente ao sol, suportaria os demais fatores climáticas por pelo menos alguns anos, talvez cinco. Para quem já tinha se conformado em conseguir, na melhor das hipóteses, um porta-retrato comum com uma foto que se desmancharia quando caíssem os primeiros pingos de chuva, aquela possibilidade era a mais surpreendente e bela luz que poderia ter surgido no fim do túnel — e, se conseguíssemos enviar a imagem até as 17h (o que, na prática, implicava em abrir mão das demais atividades programadas para aquele dia), a placa ficaria pronta na manhã seguinte.
Acontece que, para criar a imagem, eu precisava entender melhor alguns detalhes técnicos. Voltamos ao centro fotográfico, o que nos custou cerca de vinte minutos de caminhada. Depois de esclarecer minhas dúvidas, decidimos entrar no café ao lado e pedir um lanche. Na prática, estávamos comprando o direito de usar sua estrutura (mesa e Wi-Fi) para que eu pudesse desenvolver meu mais novo “projeto”. Eu sabia de antemão que aquela tentativa de economizar tempo tinha tudo para dar errado. Para começo de conversa, ao contrário do resto do mundo, não suporto sequer o cheiro de café. 🤢 Além disso, tenho hipersensibilidade sensorial — o que significa que todos os meus sentidos (olfato, visão, audição, tato e paladar) são muito mais apurados do que os de uma pessoa normal, para não falar da intensidade das emoções. Para complicar ainda mais a situação, tenho também Transtorno do Processamento Auditivo Central, uma dificuldade do cérebro para processar os sons em ambientes ruidosos. Trocando em miúdos, eu literalmente mal consigo somar dois mais dois quando estou cercada por luzes, sons, aromas, multidões e quaisquer outros elementos que desorientam meus pobres neurônios.
Em menos de três minutos naquele lugar, eu estava em pânico! A única chance de recuperar minha capacidade de raciocínio era me recolher à quietude do nosso “hotel”, o que consumiria mais quarenta minutos do já comprometido tempo. Depois de tantas idas e vindas, falhas de conexão com a Internet, sites irresponsivos e muitas outras dificuldades técnicas envolvidas na criação da imagem, às 16h06 estávamos de volta ao centro de Limerick, efetivando o pedido do nosso improvisado memorial. Saímos dali e fomos procurar um restaurante para almoçar.
Enquanto aguardávamos pelos nossos pratos, fiquei me martirizando pelas falhas na imagem que criei. O nome do site, o link para uma postagem até então ainda em branco e o código do Spotify, que nem é muito popular, ficaram grandes demais. Por outro lado, o QR code, que todo mundo sabe usar, pequeno demais. Tudo me parecia desproporcional e fora do lugar. Na ânsia de enviar o arquivo até as 17h, simplesmente juntei as informações pertinentes logo na primeira disposição minimamente aceitável, sem sequer tentar uma segunda possibilidade. Em minha defesa, além de não ter dons artísticos nem as habilidades técnicas e ferramentas adequadas para produzir um trabalho gráfico, eu estava completamente tomada por todas as emoções envolvidas no processo — e essas criaturinhas, por si só, afetam minha clareza mental muito mais do que qualquer fator externo! Somente ali no restaurante me dei conta de que ainda havia algum tempo hábil para aprimorar aquela imagem, mas era tarde demais! Naquele momento, só me restava torcer para que nada desse errado na execução daquele projeto. Antes mesmo de terminar nosso almoço, outros clientes começavam a chegar para o jantar.
Às 10h da manhã seguinte, nossa encomenda estava pronta — e ficou tão mais bonita do que eu havia imaginado que as imperfeições da minha própria criação ficaram em segundo plano. Isto é, o QR code de fato requer um pouco de paciência para ser lido, pois, por eu ter esquecido de considerar a borda da imagem (🤦🏻♀️), ele ficou ainda menor do que eu havia planejado. Mas afinal, que utilidade tinha um código que levava para uma página ainda em branco? Só o que realmente importava era que a voz de Dolores continuasse sendo ouvida; e, para isto, o código do Spotify estava cumprindo seu papel com louvor!

🙏🏻 NOTA DE AGRADECIMENTO
Não posso deixar de registrar aqui o meu mais sincero e profundo agradecimento aos dois prestativos cavalheiros que me atenderam no The Photocentre Limerick. Sem o genuíno interesse de Des em me orientar quanto à melhor solução para o meu caso e sem a dedicação de Martin em produzir a peça em tão pouco tempo, essas anotações que me são tão preciosas sequer teriam sido escritas.
Des/Martin,
Desprovida dos dons de Dolores para compor uma linda canção de agradecimento, tudo que tenho para lhes oferecer são essas poucas e singelas palavras: muito, muito obrigada por não medirem esforços para atender nosso pedido de última hora. Desejo um dia poder reencontrá-los para agradecer pessoalmente. Mas, caso esse dia nunca chegue, saibam que também vocês estarão nas minhas lembranças para sempre!
O ÚLTIMO ADEUS
Para voltar ao cemitério, decidimos alugar outro carro. Melhor dizendo, um carro “de verdade”. Como mencionei sutilmente, estávamos viajando pela Irlanda em um motorhome. Em números: um veículo com 2,33 metros de largura, 3,00 metros de altura e 7,40 metros de comprimento. Como se manobrar essas dimensões “simbólicas” dirigindo em mão inglesa já não bastasse para nos deixar apreensivos, as estradas secundárias do interior daquela pequena fábrica de música em forma de ilha desafiam a lei da impenetrabilidade, aquela que estabelece que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo; mas esse assunto por si só renderia uma outra série de posts. Por ora, vou me ater ao fato de que preferimos alugar um minúsculo carro extra a enfrentar aquelas “estradas” novamente a bordo daquele trambolho.
Lá chegando, depois de contemplar um pouco mais a serenidade daquele lugar, gentilmente movemos em alguns centímetros algumas peças que já estavam sobre o túmulo para poder encaixar nosso “quadrinho” entre elas. Naquele instante, dentro do que as circunstâncias permitiram fazer, naquele pequeno pedaço de ardósia carinhosamente colocado aos pés da lápide mais bonita do discreto cemitério de Caherelly, a intangível conexão que sinto com Dolores estava, enfim, materializada.

DE VOLTA À MINHA VIDINHA
Nas minhas (agora públicas) fantasias de fã, eu teria sido uma reservada parte do círculo mais íntimo de Dolores.
Na minha reservada vida real, aquele foi o ponto mais próximo que me foi permitido alcançar na história de Dolores O’Riordan, que sempre será uma parte enorme das minhas mais cotidianas e íntimas histórias.
Para alguém que, na adolescência, jamais imaginou que fosse possível sequer cruzar as fronteiras de sua inexpressiva cidade natal, os últimos trinta e dois anos têm sido uma jornada e tanto! E eu fui incrivelmente longe!
Para resumir sua importância em minha vida com suas próprias palavras, eis aqui uma versão ligeiramente modificada de dois versos de uma música que, devido às limitações do desafio do meu auto atribuído desafio, ironicamente, não foi incluída nesta playlist: Cordell, composta em homenagem póstuma a Denny Cordell, produtor que ajudou a impulsionar a carreira dos Cranberries e a quem Dolores via como uma figura paterna dentro da indústria musical.
She means something more to me than what many people will see
(and I hope she has gone to a better place…)
[“Ela significa para mim algo maior do que muitas pessoas entenderão
(e eu espero que ela tenha ido para um lugar melhor…)”]
*Cordell, do álbum To The Faithful Departed [Aos Fiéis Que Se Foram],
em destaque na playlist In Loving Memory Of… [Em Saudosa Memória De…]
♪ DOLORES FOREVER
[Uma playlist de Musings N’ Music]
Minha playlist em saudosa memória de uma voz que tocou para sempre as partes mais profundas da minha alma: Dolores O’Riordan [The Cranberries].
[Músicas em ordem majoritariamente cronológica]
