“Ano novo, vida nova!” — É quase engraçado como, janeiro após janeiro, zilhões de pessoas acreditam tão entusiasmadamente que serão capazes de cumprir dezenas de resoluções escritas em uma longa lista, mas depois, dezembro após dezembro, ficam desapontadas pelo fato de que apenas alguns (ou nenhum!) desses itens foram efetivamente alcançados. Observar esse padrão possivelmente explica por que nunca fui o tipo de pessoa que se empolga com resoluções de Ano Novo. Parece-me claro que uma mera mudança no calendário não é suficiente para trazer uma mudança substancial para a minha vida. Nos últimos anos, porém, algumas situações recorrentes em minhas poucas interações sociais têm me levado a pensar que eu deveria desenvolver uma habilidade que nunca foi meu forte: preciso aprender a mentir.
Okay, neste instante, posso ouvir as gargalhadas daqueles que me conhecem pelo menos um pouquinho. Ao longo da minha vida, aonde quer que eu vá, ganho quase que instantaneamente a reputação de ser uma pessoa que não mente. Aparentemente, tal reputação vem do fato de que se eu tento dizer algo que não é verdade (e pior, mesmo quando estou completamente calada!), todo o meu rosto – contra meu controle e vontade – diz algo totalmente diferente das minhas palavras ou do meu silêncio. Bem, é hora de acabar com esse mito: é claro que já menti algumas vezes. É bastante óbvio que ninguém consegue passar uma vida inteira sem contar uma única mentira. A questão é que, enquanto para alguns mentir é uma parte tão natural de suas rotinas diárias que nem percebem que estão fazendo isso, para mim, é uma exceção tão rara que é de fato difícil lembrar rapidamente, por exemplo, mais de três ocasiões (relevantes) em que menti. Elas existem, com certeza, mas não vêm facilmente à minha mente.
Deixando bem claro: não estou dizendo isso para bancar a santa. Só eu sei das minhas lutas diárias com os inúmeros monstros que vivem dentro do meu putrefato coração. Acontece que, exceto em raros casos, como proteger alguém de ser ferido, não vejo sentido em mentir. Além disso, uma mentira nunca está sozinha. Normalmente, é preciso inventar diversas outras mentiras para sustentar a primeira – o que é um esforço hercúleo e interminável. Dizer a verdade simplesmente parece muito mais fácil. Sobretudo, eu realmente não confio em pessoas que mentem. Portanto, sem falar nos aspectos morais, contar mentiras seria uma contradição – e faço o possível para que meus atos não contradigam minhas palavras e crenças. Não tenho certeza do quão bem-sucedida sou neste objetivo, mas verdadeiramente tento. Dito isto, ultimamente tenho sido forçada a reconhecer que não ser capaz de contar “pequenas mentiras” ao menos em situações menores tem me colocado em posições constrangedoras e – pior ainda! – dolorosas.
Para entender como essa incapacidade vem me afetando, pense em como você responderia a essas perguntas simples, que provavelmente são as mais básicas e comuns em qualquer interação social: (1) “Como você está?”; (2) “O que você tem feito?”; e (3) “Você trabalha com o quê?”. Se neste momento você está imaginando o que há de errado com essas perguntas, então você está começando a ter um remoto vislumbre do meu sofrimento interno. Agora, para tornar este simples exercício um pouco mais desafiador, imagine que, por qualquer motivo, você simplesmente não está a fim de responder. Aposto que você consegue rapidamente ter algumas ideias que manterão o fluxo da conversa – e está tudo bem! Ninguém vai morrer porque o que você disse não é 100% verdade. Agora adivinhe? Eu não consigo pensar em coisa alguma e, enquanto espero que uma ideia alternativa me venha à mente, sei que pareço a pessoa mais estúpida do mundo – o que, honestamente, é o menor dos meus problemas a essa altura.
Aqui está outro ponto que precisa ficar bem claro: é óbvio que não estou, nem nunca estarei, defendendo mentiras! Quanto mais o tempo passa, mais me convenço de que elas são uma das maneiras mais rápidas de arruinar qualquer relacionamento! Mentiras me machucam, e estar em uma situação em que se espera que eu minta me machuca ainda mais, pois isso vai contra meus princípios mais profundos. Para não falar de casos ainda mais pessoais e delicados, diversas vezes fui colocada, por exemplo, em projetos de grupo nos quais os alunos não faziam coisa alguma, mas levavam o professor a acreditar que o trabalho estava todo pronto. Para mim, sobrava esse dilema complicado: se eu quisesse tirar boas notas, precisaria conversar com o professor sobre isso, mas se o fizesse, seria vista como uma traidora — uma traidora por falar a verdade! É uma lógica que simplesmente não consigo entender! Embora ninguém mais estivesse preocupado, eu era diariamente consumida por esse conflito ético. O que tenho observado com tudo isso é que minha incapacidade de ser, digamos, um pouco mais criativa em determinadas circunstâncias também tem sido verdadeiramente dolorosa e exaustiva para mim. Então, para o meu próprio bem, talvez eu devesse encontrar um equilíbrio entre ser 100% transparente sobre tudo e não me permitir ser tão ferida. Acho que um filme “antigo” que assisti novamente há alguns meses ilustra muito bem essa questão: O Primeiro Mentiroso.
🎬 O PRIMEIRO MENTIROSO [The Invention Of Lying]
Direção: Ricky Gervais, Matthew Robbinson
Roteiro: Ricky Gervais, Matthew Robbinson
Elenco: Ricky Gervais, Jennifer Garner, Jonah Hill, Rob Lowe, Tina Fey
Em um mundo onde ninguém jamais mentiu (mais do que isso, onde as pessoas estão sempre dizendo a verdade sem rodeios, mesmo quando não são questionadas), o personagem principal dessa história de repente aprende a “dizer algo que não é” – é assim que ele tenta explicar aos amigos o que havia acabado de fazer. A ideia é tão inimaginável que ninguém consegue entender o que ele em vão ele se esforça para expressar. No auge do entusiasmo com sua nova descoberta, ele acaba recorrendo a tal artifício por causas questionáveis, mas rapidamente aprende que pode usar algumas mentiras bem-intencionadas para amenizar o sofrimento das pessoas, embora, mesmo nesses casos, as mentiras sempre o coloquem em apuros. Ainda assim, é difícil culpá-lo quando ele mente para trazer um pouco de conforto e alegria às pessoas. Uma cena, no entanto, me tocou de maneira especial: quando ele tem a chance de manipular uma pessoa para conseguir o que ele mais deseja na vida, ele decide não mentir. Ele não quer construir um relacionamento baseado em mentiras; pelo menos, não naquela mentira específica e crucial. Apesar de ter algumas falhas lógicas previsíveis, é uma história que nos desafia a encarar o fato de que um mundo totalmente livre de mentiras tornaria a vida completamente insuportável. Nem mesmo filmes, exceto documentários, existiriam. Afinal, o que são a maioria dos filmes, livros, poemas, canções, pinturas, etc., senão criações imaginárias de “coisas que não são”? A rigor, são todos mentiras fantasias que muitos de nós adoramos ver/ler/ouvir para nos ajudar a suportar a realidade. Então, talvez seja hora de eu desenvolver algumas habilidades nessa área?
Se você é meu amigo próximo, sabe que não precisa se preocupar porque nunca conseguirei mentir para você (embora talvez eu devesse fazer um esforço para dizer apenas “estou bem” sempre que me perguntar como estou, principalmente quando estiver morrendo por dentro). Mais do que isso, você sabe que esta é a resolução de Ano Novo mais fadada ao fracasso da história da humanidade! No máximo, terei algum sucesso em ficar cada vez mais calada, embora ainda não tenha ideia do que fazer para controlar as expressões do meu rosto fofoqueiro. Mesmo assim, achei que compartilhar essa intenção exótica poderia lhe trazer algumas risadas (e alguns pensamentos provocantes) para começar o ano. Desejo a você um feliz 2024, espero que com alguns itens de sua lista de resoluções cumpridos e livre de situações que o façam se sentir pressionado a mentir por qualquer que seja o motivo. Vamos ver como será o meu.
⚠️ ATUALIZAÇÃO EM 03.04.2005
Caso alguém esteja se perguntando se obtive algum sucesso com minha resolução, já não preciso me esforçar para informar um número imaginário de telefone para vendedores que, tendo o número correto, passariam a me bombardear com anúncios indesejados. Ainda tenho muito a “desenvolver” nessa “área”, mas já é uma paz de espírito não ser importunada com mensagens que não me interessam! 😇
▷ Publicado originalmente em 4 de janeiro de 2024 no (agora inativo) perfil Musings N’ Music no Medium.