Inseparáveis E Implacáveis

Há tempos me pego refletindo sobre o tempo. A velocidade com que ele passa, porém, não me permite registrar todos os meus devaneios. Já quis aqui divagar especificamente sobre esse tema. Mas, vítima de sua própria pressa, também ele acabou sendo atropelado. Nos últimos dias, no entanto, depois dos (vão) esforços para encaixotar uma casa inteira em um final de semana, ele fez questão de se impor através de dores que me obrigaram a caminhar em um ritmo contrário ao seu: devagar, quase parando. Estou sendo literal. Falo de passos marcados pela ciência de cada músculo do corpo, em especial das costas. É que, embora nas minhas memórias o ano mais marcante da minha vida – 1993 – tenha sido ontem, parece mesmo que tirei apenas um cochilo breve e mais de trinta anos se passaram, me lembrando (como se fosse possível esquecer!) que o tempo está sempre acompanhado de sua gêmea siamesa, a idade.

Sim, há tempos ela chegou! Quase dez anos atrás, exatamente quando previa a Medicina, os ouvidos deixaram de detectar algumas frequências e a visão se embaçou, jamais voltando a ser como antes. Não é de hoje que não caibo mais nas roupas que eu cabia. Quanto mais os dias passam, mais estranheza me causa a imagem que vejo no espelho. Os braços parecem troncos de baobás. O rosto – na forma, no tamanho, nas marcas e na cor dos cabelos – me lembra a lua cheia. A barriga insiste em não caber mais em si, mas não exatamente por contentamento. Na mente, as ideias, boas ou duvidosas, ainda fervem e, nas mãos, os dedos continuam plenamente ágeis. É o resto todo do corpo que muitas vezes se recusa a se levantar para tomar nota dos pensamentos. Nem parece o mesmo corpo que, no auge de seus quinze anos, para desespero da coordenadora, subia e descia correndo as escadas do colégio. Hoje, só quer saber de ficar de pernas para o ar, literalmente. A cada degrau que vagarosamente subo, o fôlego diminui e sinto estar carregando uma tonelada. É só o meu corpo – que, de fato, não é mais o mesmo.

Mas o que realmente pesa é não estar mais nas prioridades de quem eu queria (ainda quero) tanto bem, escrever linhas que (quase) ninguém lê, às vezes me perguntar se ouvi mesmo alguma voz. Com tantas novidades trazidas pelo tempo – contas a pagar, empregos, tarefas domésticas, cônjuges, filhos, pets, doenças –, ninguém mais tem tempo para se sentar e conversar com um amigo sem a interrupção de tecnologias que, acreditam os ingênuos, foram criadas para nos proporcionar, vejam só!, “mais tempo livre”. Ironicamente, parecem todos mais e mais escravizados e com menos e menos tempo. Quem desejar que alguém lhe dedique algum tempo exclusivo precisa recorrer a um bom terapeuta. Talvez assim, além de desfrutar de uma companhia atenta apesar de também limitada aos ponteiros de um relógio, aprenda a simplesmente aceitar a saudade de um mundo (ou de um tempo) que já não existe mais.

MÚSICA PELOS MEUS OUVIDOS

NÃO VOU ME ADAPTAR
Titãs
[Arnaldo Antunes]

Há quem pense que já nasci velha. Não deixam de ter alguma razão. Em muitos aspectos, sempre me soube antiquada demais para acompanhar o mundo ao meu redor. Em muitos outros, porém, ainda me sinto com os 21 anos que tinha quando essa releitura de Não Vou Me Adaptar foi lançada pelos Titãs, às vezes até mesmo com os 8 anos que tinha quando do lançamento da versão original, que agora em 2025 está completando 40 anos. Isso mesmo: 40 anos! Também para essa música, em que o eu-lírico reluta em aceitar as inevitáveis transformações escancaradas pelo espelho, o inegável afastamento dos que antes lhe eram tão próximos e as dúvidas sobre seu próprio valor e sanidade, o tempo passou! Se o curso natural da vida não for abruptamente interrompido, sei que chegará o tempo em que a possibilidade de escolha será, na verdade, arrancada de mim. Mas enquanto puder resistir, também eu não vou me adaptar!

[faixa #11 na playlist Musings N’ Music Soundtrack]


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