Por Que Escrevo

Acordei quase em um sobressalto na madrugada, já tomada por um insight.

Voltando um bocado no tempo, sete anos de idade, terceira série do primário, primeiro dia de aula, entra na sala Tia Josefina. Ah, como era divertido olhar para a professora e visualizar nela a personagem da música lançada meses antes pela Turma do Balão Mágico! O que não me soou nem um pouco engraçado foi que, ao invés da já tradicional redação sobre as férias de fim de ano, ela nos pede para escrever sobre um animal de estimação. Como se falar de férias não fosse suficientemente frustrante para uma criança cujas noções sobre viagens se resumiam aos relatos contados pelos coleguinhas, ela resolve tocar logo em uma das minhas maiores feridas. Desde pequena, amava animais, mas até então não fazia a menor ideia do que era ter um. Mesmo assim, junto as duas dores em uma só e lhe entrego seis páginas, o triplo da média da turma, contando detalhes sobre um casal de gatinhos que eu teria ganhado nas “maravilhosas” férias. Dias depois, recebo minha inocente historieta de volta com uma nota generosa, porém acompanhada de uma firme repreensão (felizmente, apenas verbal): “na próxima vez, não minta”.

Ora bolas! Tia Josefina se esquece de prever que nem toda criança é abençoada com o privilégio de ter um animalzinho de estimação e me acusa de mentir por fantasiar nas páginas do meu caderno os bichinhos que eu não podia ter fora dele? O que ela queria que eu fizesse? Ficasse com zero? Não me parecia bom, muito menos justo! Como se pode notar, não é de hoje que a indignação, o senso de (in)justiça, os questionamentos infindáveis (e solitários), o inconformismo com tudo o que não me parece fazer sentido e esse impulso visceral de imaginar em folhas (ou telas) em branco um mundo que faça sentido para mim me são fiéis e inseparáveis companhias. Não sei quando exatamente essa (quase?) compulsão começou, mas não me lembro de um dia da minha vida em que eu não tenha rascunhado meia dúzia (ou beeem mais) de palavras – se não em papéis ou bytes, ao menos nas paredes da minha memória.

A possibilidade de criar um universo paralelo à realidade que me cerca: creio ter sido este o primeiro deleite que a escrita me proporcionou, ainda que naquela tenra idade esse entendimento talvez não tenha sido elaborado necessariamente nesses termos. Aos poucos, fui tomando consciência de outros. Assim como somente na solitude fico completamente à vontade para ser quem sou, somente na escrita me sinto plenamente livre para me expressar exatamente como quero. Os raros corajosos que leem meus rabiscos podem até discordar ou não gostar deles, mas pelo menos enquanto os escrevo, os papéis ou telas não me julgam, não me lançam olhares de desaprovação, não me interrompem deselegantemente enquanto minhas ideias estão fluindo a todo vapor, nem me apressam ansiosamente quando estou ainda processando meus pensamentos; simplesmente me deixam “falar” no meu tempo, seja ele rápido ou lento, e do meu jeito, seja ele certo ou errado, bonito ou feio, alegre ou triste. Quando escrevo sou verdadeiramente ouvida – isto é, considerada, respeitada, levada a sério. Mais recentemente, me dei conta de que escrever é também um jeito de (tentar) “me organizar” e, voltando um pouco mais no tempo, para meu próprio espanto, algumas vezes fiquei atônita ao constatar, bem diante dos meus olhos, que pela escrita é possível emocionar pessoas – o que particularmente considero um dos feitos mais significativos que um ser humano pode alcançar. Só nesta madrugada, porém, me veio de repente uma das mais importantes compreensões que me faltavam: é na escrita que encontro a minha cura!

Compartilhar o que escrevo, no entanto, provoca efeitos colaterais pra lá de indesejados e doloridos! O primeiro desconforto foi sentido nove anos mais tarde, quando outra professora, sem me pedir permissão, começou a fixar minhas redações no mural do curso preparatório para o vestibular. A poucos meses das temidas provas, para todos os meus colegas, ter seus trabalhos divulgados naquele espaço era um “prêmio” que perseguiam com muito empenho. Para mim, que, sempre diferente, sempre prezei muito pela minha privacidade, era uma exposição desnecessária; mais do que isso, uma invasão aos meus pensamentos e às vezes até mesmo aos meus sentimentos. Ter minha mente e minha alma acessíveis a qualquer um que quisesse ver me causava – e ainda causa – uma sensação de nudez muito mais terrível do que a de um exame íntimo!

De novo me vi em uma situação desfavorável. Aparentemente, para escapar da visibilidade teria de escrever de um jeito que eu não sabia, nem queria, escrever. Já um pouco mais crescida, tentei o tal “caminho do diálogo” e pedi à professora que não colocasse meus despretensiosos escritos no “bendito” mural. Por algum tempo, com algum desgaste (toda semana ela pedia, toda semana eu negava), funcionou. Não muitas semanas depois, por conta de um mal-estar nunca plenamente elucidado, passei alguns dias no hospital. Quando voltei, lá estava eu de novo grudada na parede. Vi de longe. De tão minúscula, minha caligrafia acabava ironicamente se destacando entre as letras gigantes dos demais alunos. Senti-me traída! Foi em algum momento daquele ano, antes mesmo desse fatídico episódio, que inventei um alfabeto próprio. A partir de então, qualquer anotação que não fosse relacionada às aulas era registrada em símbolos que pareciam um misto de hieroglifos antigos com grafias asiáticas contemporâneas. Pronto! Estava, enfim, protegida!

Para uma pessoa que criou um alfabeto próprio a fim de não ter sua intimidade descoberta, divulgar seus rabiscos por livre e espontânea vontade era uma ideia que, obviamente, jamais havia sido cogitada. Nas minhas ambições de criança/adolescente, estava a Arquitetura, paixão que me foi proibida; nos delírios, a Música, paixão que sabia fora do meu alcance. A escrita sempre fluiu tão naturalmente que, assim como o ar que respiro, sua presença em meu dia a dia sequer chamava minha atenção, muito menos foi considerada como possibilidade de ofício. Ironicamente, de tão inerente a mim, muito mais do que uma profissão que eu poderia exercer, é ela que de fato define o que eu essencialmente sou. Ainda assim, expor meus rascunhos de alfarrábios nunca pareceu fazer sentido. Sequer entendia por que aquela professora insistia em querer expor minhas redações juntamente com as de alunos que eram as verdadeiras estrelas da sala, “constelação” cujo brilho eu observava apenas à distância. Exceto por um domínio gramatical que reconheço ser incomum, nada demais vejo nos meus textos. Ao contrário, embora verdadeiramente me divirta enquanto os escrevo, sei que são quase sempre prolixos, não raro enfadonhos, às vezes até mesmo patéticos e, sobretudo, permeados de particularidades que não creio serem de interesse público. Saltando outros nove anos no tempo, lá estava eu, por iniciativa própria, escancarando, não apenas entre as paredes de uma modesta instituição de ensino, mas em universo que desconhece fronteiras, aqueles pensamentos e sentimentos por anos cuidadosamente guardados por caracteres indecifráveis – e foi assim que o que até então era apenas um prazer passou a ser também uma inseparável dor.

Apesar de ter na escrita uma válvula de escape de um mundo tão inóspito, reconheço que uma de suas particularidades faz dela uma fonte de mal entendidos catastróficos: a ausência de tom de voz. Sem ele, o que era pra ser engraçado pode soar dramático, o que era pra ser de fato dramático pode soar engraçado, o que era pra ser apenas um desabafo pode soar agressivo, o que era pra ser de fato agressivo pode soar apenas um desabafo, e por aí vai. As possibilidades de confusão são infinitas e nem a intimidade pode livrar escritores e leitores desse mal – lição que aprendi por experiência própria ao ter minhas palavras interpretadas de maneiras totalmente contrárias às minhas intenções, para minha surpresa, por pessoas muito próximas. Conseguir convencê-las de que focinho de porco não é tomada foi um tanto complicado e dolorido, para ambas as partes. Agora, se até mesmo grandes amigos podem entender erroneamente o que queríamos expressar, o que esperar de quem sequer nos conhece?

Falo apenas por mim, mas ousaria apostar que a inevitável exposição, da mente e da alma, bem como essa total e apavorante falta de controle sobre como o outro pode nos ler, culminando em interpretações demasiadamente equivocadas/distorcidas das que pretendíamos, são os dois maiores e mais inseparáveis temores de toda pessoa que gosta de escrever. Em tempo: não me refiro a pequenas ressignificações que dão a um texto um sentido único para cada leitor; essa apropriação eu também faço talvez com a maioria dos livros que leio ou músicas que escuto. Falo, porém, de deturpações típicas daqueles que, não sabendo separar realidade e ficção, fazem as mais estapafúrdias suposições a respeito não apenas de uma obra, mas também de seus autores. É uma linha muitas vezes tênue e, especialmente em um ambiente onde “gente demais com tempo demais falando demais alto demais”1 se acha no direito de julgar – e condenar! – aqueles que sequer conhecem por ideias que muitas vezes sequer são capazes de compreender, o preço que se paga por dar a cara a tapas é também alto demais!2

Nenhum julgamento, porém, é mais implacável do que o meu próprio senso de ridículo. Depois de pacientemente testemunharem tantas idas e vindas, os que me são mais íntimos até têm alguma noção, mas no fundo só eu sei o quanto questiono diariamente a relevância que meus devaneios possam ter para qualquer pessoa além de mim mesma. Não espero, portanto, que eles sejam aplaudidos, ecoados, muito menos compreendidos (a essa altura da vida já estou mais do que acostumada a ter pensamentos absolutamente destoantes e solitários). São apenas divagações, desabafos ou histórias que invento como tentativas (às vezes vãs) de construir algo que faça sentido para mim; organizar o caos generalizado que é a minha mente, mantê-la raciocinando e produzindo por si só em uma era de raciocínios e produções cada vez mais artificiais; me libertar das amarras que atrasam e até prendem meus passos; me curar das dores que sofri, das dores que causei; expulsar de dentro de mim os fantasmas que assombram meus dias e noites; criar memoriais de tudo que me serve de refrigério – os lugares por onde andei, os aromas que senti, os sabores que provei, as pinturas que encheram meus olhos de cores, os poucos filmes que valeram minhas horas em frente a uma tela, os muitos livros onde tantas vezes encontrei acolhimento e companhia para meus atípicos sentimentos e percepções, as inúmeras músicas que me encheram de uma arrebatadora e imensurável vontade de viver para sempre. Na certeza da minha finitude, quem sabe meus registros possam ser uma ínfima contribuição para que essas obras continuem vivas na memória daqueles que me são tão caros. Enquanto o dia de nos despedirmos não chega, é escrevendo que tento suportar um mundo que, ao contrário da mão de uma criança, tem sobre os meus ombros um peso esmagador! 3

E por que, então, continuar me expondo e me dispondo a pagar um preço tão alto por algo cujo valor aos olhos alheios pode ser tão diminuto ou sequer existir? Nas minhas próprias e brutas palavras, porque sou uma trouxa incorrigível! Nas delicadas palavras de uma das pessoas mais gentis que tenho a felicidade de conhecer, porque apesar de ter nascido com uma alma já envelhecida, aquela criaturinha que aos sete anos fez de um casal de felinos imaginários uma afável companhia para sua solidão existencial ainda mora dentro de mim e, em parte por uma ingenuidade comovente, em parte por uma ambição desmedida, a despeito de todas as minhas advertências, ela insiste em acreditar, com todas suas forças, em causas perdidas4 ou nem mesmo notadas pelos que apenas vagueiam distraidamente ao seu redor – e entre suas maiores e mais ingênuas ambições está o singelo e genuíno desejo de que aqueles raros transeuntes que por ventura vierem a se reconhecer em seus desatinos, ao menos por alguns instantes, não se sintam sós!

1 Referência a Alexandria, música de Humberto Gessinger e Tiago Iorc, gravada por ambos e mais conhecida na versão do Tiago (olha a intimidade! 😇).
2 Referência a O Preço, música de Humberto Gessinger.
3 Referência a Os Ombros Suportam O Mundo, meu poema preferido do Carlos Drummond de Andrade.
4 Referência a Dom Quixote, música de Humberto Gessinger e Paulinho Galvão, gravada pelos Engenheiros do Hawaii.



MÚSICA PELOS MEUS OUVIDOS

ME ENSINA A ESCREVER
Oswaldo Montenegro
[Oswaldo Montenegro]

Sem que ninguém jamais precisasse me ensinar, ao menos não além do que era ensinado em aulas regulares, sempre tive com a escrita uma relação diametralmente oposta à de todos ao meu redor. Enquanto muitos dos que foram alfabetizados junto comigo, hoje já tão velhinhos quanto eu, ainda entram em pânico quando são obrigados a escrever, continuo a arregalar os olhos de examinadores quando peço para extrapolar os tradicionais limites de palavras em avaliações que eventualmente tenho que redigir. Folhas (ou telas) em branco jamais me assustam. Ao contrário, me acolhem, me acalmam, me inspiram, me permitem a liberdade e a paz de ser quem sou, me devolvem a mim mesma.

Por conta de todos os dissabores já provados, no entanto, diversas vezes tentei (às vezes ainda tento) me afastar não apenas da exposição do que escrevo, mas também da escrita propriamente dita. Em todos esses momentos, me enfraqueci, adoeci, estive nada menos do que morta por dentro. Mesmo não sendo um ofício que viabilize minha subsistência e eu possa declarar em incômodas circunstâncias que vira e mexe me cobram uma função social, enquanto atividade, é a escrita que de fato define a minha identidade, sustenta e dá sentido à minha vida. Sei que as linhas que brotam das minhas mãos não vão mudar a mundo nem ao menos formar belos poemas para enfeitá-lo, mas sei também que preciso escrever.

[faixa #14 na playlist Musings N’ Music Soundtrack]


MÚSICA PELOS MEUS OUVIDOS

WRITE ON [Continue Escrevendo]
The Hollies
[Allan Clarke, Terry Sylvester, Tony Hicks]

Além do pavor da exposição, da total falta de controle sobre como minhas palavras serão interpretadas e das constantes dúvidas sobre o valor delas para outros olhares, há também um outro fator que me faz ter certeza de que as horas que passo me registrando em parágrafos que mal são lidos pelos que me são mais próximos se constituem em um completo, insano, injustificável e irreparável desperdício de tempo: o absoluto desprezo pelas palavras em uma sociedade cada vez mais dominada por imagens.

Não sei me resumir. Na verdade, até sei, mas não quero. Reconheço que tenho uma forma de me expressar que pode ser um pouco desafiadora a olhares preguiçosos que defendem que a letra do Hino Nacional deve ser simplificada a fim de ser compreendida por todos os cidadãos. Como incurável lunática, no meu Brasil imaginário a lógica funciona ao contrário: os cidadãos recebem, por parte dos pais, dos educadores e dos governantes, uma formação que lhes permite interpretar um texto que não se limita ao máximo de três frases curtas – mas isso já seria assunto para outro “textão”.

Quando penso em tudo isso, dá vontade de desistir e simplesmente me dedicar a alguma atividade “socialmente aceitável e apresentável”. Nesses momentos, repetidas doses de Write On [Continue Escrevendo], da banda inglesa The Hollies, funcionam como um lembrete em forma de rock de que não sou a primeira nem a última pessoa a experimentar as frustrações intrínsecas a esse hobby tão solitário, que às vezes parece mais uma maldição do que uma benção, e também de que, acima de tudo, este é um hábito que mantenho por mim e que, portanto, mesmo que ninguém leia, preciso continuar escrevendo!

[faixa #15 na playlist Musings N’ Music Soundtrack]


Rolar para cima