▷ Para Anna Flores
SOBRE AS PLAYLISTS DA SÉRIE OS ANOS PELOS MEUS OUVIDOS
[INTRODUÇÃO “REVISTA E ATUALIZADA”]
Em uma despretensiosa tarde de 2015, de repente me dei conta de que algumas das músicas que mais amo foram lançadas em 1991 — um dos anos mais marcantes da minha vida e que viu nascer também um dos seres humanos mais incríveis que, somente catorze anos depois, eu teria a sorte de conhecer. Ao notar tal feliz coincidência, quis presentear essa pessoa com aquela trilha sonora que, enquanto ela era apenas um bebê que acabara de chegar ao mundo, já embalava algumas das emoções que mais intensamente ficariam para sempre gravadas nas minhas mais preciosas memórias.
Acontece que quando esse pequeno insight me ocorreu, uma traiçoeira inovação tecnológica já havia revolucionado a indústria fonográfica: os discos que outrora foram símbolos culturais de diversas gerações de saudosistas como eu acabaram perdendo o lugar cativo que ocupavam em nossas estantes para os práticos, porém impalpáveis, serviços de streaming, uma espécie de faca de dois gumes que baniu da superfície terrestre o que tínhamos de melhor para presentear alguém. Impotente diante do inédito capítulo de vida real, para que além de atadas minhas mãos não ficassem também ensanguentadas, a única maneira de “embrulhar” aquelas músicas para aquela amiga tão querida era me render, não sem muita resistência, à inescapável novidade… E foi assim que criei minha primeira playlist (pública). Não tinha cara de presente, mas tinha a intenção.
Logo depois, quis estender minha modesta homenagem às músicas e pessoas especiais nascidas em outros anos. Quando percebi, já tinha uma série de coletâneas que batizei com o grudento nome de The Years Through My Ears. Mais recentemente, decidi também contar um pouco de como as canções escolhidas passaram a fazer parte da minha própria história, o que nem sempre acontece na mesma época em que elas são lançadas. Mas, mesmo extrapolando as datas, esses registros continuam sendo impressões sobre “Os Anos Pelos Meus Ouvidos”; só que, como é próprio de mim, de um jeito não muito convencional.
Ao compartilhar parte das memórias que os calendários me trazem, desejo aos meus companheiros de viagens pelo tempo um emocionante reencontro com suas próprias memórias. Nesta playlist voltamos a 1986, o ano que me reservaria uma surpresa infinitamente mais mágica do que qualquer cometa.
“NOTAS BREVES”
“Não vou contar a história como ela aconteceu. Vou contar a história como eu me lembro dela.”*
Ao compartilhar minhas impressões meramente pessoais sobre algumas músicas, não pretendo fazer um fiel registro histórico das paradas de sucesso de um determinado ano, nem uma rigorosa interpretação literária de suas letras, muito menos uma análise técnica das habilidades vocais e/ou instrumentais de seus intérpretes. Faltam-me as capacitações pertinentes para abordar tais aspectos. Sobram-me, no entanto, as emoções e lembranças que as músicas me trazem. 🥹
São essas emoções e lembranças, às vezes de fato acompanhadas por alguns detalhes secundários, que tenho registrado em singelas “memórias musicais”, talvez uma versão solitária dos “encontros musicais” descritos pela neurocientista Susan Rogers em seu livro This Is What It Sounds Like, ainda sem tradução para o português. Segundo ela, “compreender o gosto musical de um amigo pode ser uma experiência íntima que revela como ele se vê em relação ao mundo, o valor das experiências estéticas em sua vida ou quem ele quer ser quando crescer (ou quem queria ser)”. Por este motivo, os momentos em que amigos se reúnem para tocar músicas uns para os outros, contando entre si os motivos que tornam as canções selecionadas tão especiais em suas vidas, são gratificantes oportunidades para ouvir músicas que ainda não conheciam, apreciar músicas já familiares sob outras perspectivas e, sobretudo, descobrir algo novo sobre a maneira como seus companheiros pensam e se sentem, e também sobre si mesmos. Afinal, quando alguém escolhe músicas que expressam sua identidade mais profunda, descreve por que gosta tanto delas, e corre o risco de ter suas paixões musicais particulares ouvidas por outras pessoas, acaba entrando em contato com as nuances de seu próprio eu musical. Ou seja, muito além de meras interações sociais, as sessões de audições são verdadeiras aventuras de descobertas inter e intrapessoais.
Mas parece que tais encontros só são possíveis nas páginas do livro de Susan Rogers (e provavelmente se restringem ao seu passado). Fora delas, estar com um amigo ao mesmo tempo e no mesmo espaço é um acontecimento, infelizmente, cada vez mais raro. Por isto, para quem quiser ouvir, sigo ao meu modo contando a trilha sonora da minha história, como (e enquanto) eu me lembro dela.
*Primeiras palavras ditas pelo protagonista Finnegan “Finn” Bell na cena de abertura de Grandes Esperanças (Alfonso Cuarón, 1998).
1986 PELOS MEUS OUVIDOS
- Estreia em Londres O Fantasma Da Ópera, meu musical preferido.
- Entre alguns outros nomes, dois dos artistas mais presentes na minha vida lançam seus primeiros álbuns de estúdio: Engenheiros do Hawaii (Longe Demais Das Capitais) e Roxette (Pearls Of Passion).
- Catorze anos após seu lançamento, um clássico na voz de B.J. Thomas faz enorme sucesso nas rádios do Brasil: Rock And Roll Lullaby, uma das mais belas canções sobre o terno vínculo de um filho com sua jovem e desamparada mãe.
- Peter Gabriel lança Mercy Street, sua grande obra-prima, na qual, entre outras complexas questões, aborda a conturbada relação entre uma frágil filha e seu ríspido pai.
- O Queen lança A Kind Of Magic, álbum que contém uma das minhas três músicas preferidas do grupo.
- Apesar de borboletear por alguns países, não surpreendentemente, é no Brasil e no Reino Unido que meus ouvidos estabelecem seu lar.
- Entre muito rock, em suas mais diversas vertentes, um pouco de pop, new wave, synth-pop, dance e MPB, nascem algumas das músicas mais sensuais que eu conheço.
▷ Há músicas que simplesmente AMO sobre as quais, por algumas limitações, não registrei uma única palavra nesse primeiro momento. Pretendo conseguir fazê-lo ainda nesse ano!
▷ Embora seja sempre quase impossível colocar um volume tão grande de músicas, de diversos estilos, em uma ordem minimamente suave e coerente, tentei contar uma história através da sequência que criei. Algumas transições podem não estar tão harmoniosas como eu gostaria. Pretendo aprimorar um dia, mas ao menos por enquanto creio que ainda fazem mais sentido assim do que em ordem alfabética.
▷ Se eu puder fazer um pedido, sugiro que, assim como fazíamos nos saudosos anos em que essas músicas nasceram e que ninguém pedia pra ver a programação das estações de rádio antes de ouvir, simplesmente “apertem o play” e se deixem ser surpreendidos. Se não gostarem de alguma faixa, podem sempre avançar para a próxima ou até mesmo simplesmente procurar “outra estação”.
▷ As músicas que mexem mais profundamente comigo estão comentadas em fundo azul; algumas distribuídas ao longo da playlist, mas a maioria mais concentrada no fim. Ao menos um ensinamento de Jesus eu consigo colocar em prática: deixar o melhor para o final! 😇😬
Todas as músicas aqui mencionadas que não fazem parte dessa coletânea podem ser encontradas, em ordem alfabética, na playlist The Years Through My Ears: Beyond The Calendars.
♪ A KIND OF MAGIC
Queen [Roger Taylor]
Às vezes só mesmo por um toque de magia conseguimos explicar algumas felizes coincidências que se formam diante de nossos olhos — e é exatamente versando sobre essa sensação de encantamento diante das possibilidades que a vida nos oferece que A Kind Of Magic, segunda faixa do álbum homônimo lançado pelo Queen em 1986, nos lembra de desafiar limites (físicos ou intangíveis), acreditar em nossas capacidades, contemplar nossas singularidades e abraçar os propósitos que ardem dentro de nós.
Mágica aos meus olhos ainda juvenis era a rara possibilidade de ver cruzando o céu um cometa que riscaria a noite com o rastro de sua longa e brilhante cauda. A previsão não fora concretizada, mas não ter conseguido avistar o tal fenômeno foi apenas uma das menores frustrações que encontraria pela vida. Só um dia desses me dei conta de que aquele foi o último ano em que ainda cultivei algumas fantasias; em palavras mais cruas, o último ano em que fui criança.
Mal sabia eu que, no futuro, aquele mesmo ano me reservava uma surpresa ainda mais fascinante do que qualquer corpo celeste.
Também em 1986, nascia o bebê que 38 anos mais tarde cuidaria da criança que eu (ainda) era então.
♪ JURA DE AMOR (BABY)
Dominó [Marianno Pérez, Edgard Poças]
“Dominó depois de Queen?!?!” — Posso imaginar o espanto ecoando na mente daqueles que, como eu, têm o rock correndo nas veias, porém, ao contrário de mim, se esquecem de que um dia foram crianças.
Siiiimmm! Dominó depois de Queen! [“Mas ora, vejam só”: uma rima entre os idiomas! 🤓]
Nem é preciso me conhecer tão bem para saber que a lendária banda britânica é uma das minhas cinco preferidas do rock internacional e que, para mim, Freddie Mercury é simplesmente o maior e mais imbatível cantor de todos os tempos — e é justamente a propósito da atmosfera de magia que ele mesmo canta em A Kind Of Magic que decidi colocar logo na sequência um grupo de artistas voltados para público infantojuvenil. Afinal, poucas coisas parecem tão mágicas aos olhos de uma menina entre oito e nove anos quanto quatro lindos e talentosos rapazes cantando uma apaixonada Jura De Amor. 🥰
Pode ser difícil de acreditar, mas, entre tantas faixas nessa coletânea com letras tão mais profundas e arranjos tão mais sofisticados, essa ingênua canção entoada por uma boy band típica dos anos 80 é uma das que mais têm potencial de me fazer ir às lágrimas (como já o fez algumas vezes)! 🥹
▷ Também gosto muito de Amor É Música, do mesmo álbum. Só não adicionei a esta playlist por achar que destoaria demais das outras canções.
♪ VOYAGE, VOYAGE
Desireless [Jean-Michel Rivat, Dominique Dubois]
Retomando minha “viagem” a 1896 pelos meus olhos ouvidos já adultos, creio que para grande parte das pessoas da minha geração, no Brasil e ao redor do mundo, Voyage, Voyage tenha sido o primeiro contato que tiveram com a língua francesa. De minha própria parte, eu até sabia o que significava seu título, mas só anos mais tarde entendi que a viagem na qual ela nos convida a embarcar se refere não apenas às mais diversas paisagens espalhadas pela Terra, mas também aos nossos próprios universos interiores. Hoje percebo também que há nela algumas alusões a crenças das quais discordo diametralmente, mas nem por isso deixa de me trazer, ainda que de maneira moderada, boas recordações do final da década de 80.
♪ ALGUÉM
Kiko Zambianchi [Kiko Zambianchi]
Apesar de beirar a irrelevância no cenário do pop rock nacional, ainda hoje essa é uma das músicas que mais me remetem ao ano de 1986. Embora a letra e a melodia sejam despretensiosas, minha versão de nove anos chegou a criar uma coreografia para dançar ao som desse (também despretensioso) ritmo. 💃🏻
♪ BIZARRE LOVE TRIANGLE
New Order [Gillian Gilbert, Peter Hook, Stephen Morris, Bernard Sumner]
Gravação original da música que na versão acústica do Frente! entraria para minhas lembranças de 1994.
♪ TOTALMENTE DEMAIS
Hanói-Hanói [Arnaldo Brandão, Robério Rafael, Tavinho Paes]
Repleta de referências a práticas completamente contrárias aos meus valores e, portanto, com as quais eu definitivamente não compactuo, eis aqui uma música da qual eu provavelmente não deveria gostar. Mas eu gosto – e ponto.
♪ OH L’AMOUR
Erasure [Vince Clark, Andy Bell]
Simplesmente uma das músicas mais marcantes da minha pré-adolescência! No auge de seu sucesso, um sistema de som acabara de ser instalado nas salas de aula e no pátio da escola onde eu estudava e essa era uma das canções que a direção mais colocava para tocar durante o recreio. É por causa de lembranças como essa que é difícil não achar que aqueles eram outros (e melhores!) tempos!
♪ YOU GIVE LOVE A BAD NAME
Bon Jovi [Jon Bon Jovi, Richie Sambora, Desmond Child]
Por todo o conjunto da obra, mas especialmente por começar já com um refrão cantado a plenos pulmões e também pelo show à parte que a bateria soa aos meus ouvidos, You Give Love A Bad Name é minha música preferida do álbum Slippery When Wet. Por curiosidade, para quem nunca reparou, o tal enérgico refrão é uma espécie de cover de si mesmo que Desmond Child fez a partir de If You Were a Woman (And I Was a Man), que fora lançada meses antes por Bonnie Tyler no álbum Secrets Dreams And Forbidden Fire. Vale registrar também que é uma das poucas músicas das quais me recordo em que o vilão do relacionamento tóxico não é o homem. Ou seja, ao menos em alguns aspectos, é uma música bem “fora da caixinha”, assim como essa pessoa que acaba de escrever sobre ela.
♪ LIVIN’ ON A PRAYER
Bon Jovi [Jon Bon Jovi, Richie Sambora, Desmond Child]
Mesmo enfrentando diversas adversidades materiais, Tommy e Gina, protagonistas de Livin’ On A Prayer, como que encorajados pela mensagem de otimismo cantada em A Kind Of Magic, seguem a vida se apoiando diariamente no firme amor que sentem um pelo outro e se agarrando às orações para não desistir de seus objetivos. Em outras palavras, contada por potentes vozes, bateria, baixo e guitarra com direito a efeito de talk box, é a história de todos os casais que não nasceram em berço de ouro. Não fica difícil de entender por que a música entrou para os clássicos do rock americano, quiçá mundial, e se consolidou como a grande canção-assinatura do Bon Jovi.
♪ THE PHANTOM OF THE OPERA
Andrew Lloyd Weber, Sarah Brightman, Steve Harley [Andrew Lloyd Weber, Charles Hart, Richard Stilgoe, Mike Batt]
Em 1986 estreava na capital britânica a mais esplêndida peça de teatro musical de todos os tempos! Inspirado pela ficção gótica Le Fantôme De L’Opéra, de Gaston Leroux, Andrew Lloyd Weber criou suas mais primorosas melodias para musicar a história de Christine Daaé — soprano da Ópera Nacional de Paris, que tem seu romance com o nobre e doce Raoul, seu amor de infância, ameaçado por Érik, genial e perturbado* músico de rosto deformado que vive em labirintos subterrâneos da suntuosa Ópera Garnier, fazendo com que todos acreditem que o local é assombrado por um enfurecido fantasma, e que nutre pela jovem e bela cantora uma obsessiva e possessiva paixão.
A natureza do relacionamento doentio entre a protagonista e seu malfeitor é resumida na canção que herda o nome do romance. Acreditando que o Fantasma é o “anjo da música” enviado por seu finado pai para ajudá-la a aperfeiçoar seus dons musicais, Christine entende ser a própria máscara e também a voz das brilhantes criações do atormentado mentor cuja presença reconhece estar com ela não apenas nos palcos, mas em todos os demais lugares, inclusive dentro de sua própria mente.
Além de ser uma das mais lindas canções já compostas sobre relacionamentos abusivos, The Phantom Of The Opera reacende na minha memória uma das cenas mais relevantes do espetáculo que, até a presente data, tive o privilégio de assistir duas vezes: a primeira, em 2015, na mesma Londres que foi seu berço e a consagrou como sucesso artístico (e onde, felizmente, ainda é apresentada); a segunda, em 2023, na montagem que consolidou seu sucesso comercial, entrando para a história como recordista de tempo em cartaz na icônica Broadway, em Nova Iorque — dois dos momentos mais emocionantes que já vivi! 🥹
*“Genial e perturbado” — Só eu acho que essas duas palavras juntas formam um pleonasmo? 🤔
📝
Quem cultiva memórias musicais sabe que em 1986 o álbum Rádio Pirata Ao Vivo, do RPM, fez tamanho sucesso que se tornou um enorme fenômeno de vendas. Com sete de suas nove faixas tocando nas rádios de todo o país, o disco conquistou um lugar nas estantes de mais de 3 milhões de lares brasileiros, incluindo o da única tia cujo gosto musical era minimamente parecido com o meu. Além de alguns sucessos do primeiro álbum de estúdio (Revoluções Por Minuto), dentre as canções até então registradas pela banda somente naquele show ao vivo em São Paulo, duas entrariam para as lembranças que tenho daquele ano: a inédita Alvorada Voraz e a regravação de London, London, de Caetano Veloso.
♪ ALVORADA VORAZ
RPM [Luiz Schiavon, Paulo Ricardo, Paulo (P.A.) Pagni]
Além da instrumental Naja, a única composição autoral inédita no álbum Rádio Pirata Ao Vivo trazia já no seu título uma alusão ao palácio onde autoridades que deveriam trabalhar em favor do povo brasileiro acabam se revelando vorazes “marginais de gravata” que servem apenas a seus interesses próprios, não se importando com o rastro de corrupção, violência, desesperança e medo que seus passos deixam. Na versão gravada em 2002, os crimes citados na letra foram atualizados para casos mais contemporâneos. Se regravada novamente nos tempos atuais, não seria nada difícil fazer uma nova adaptação. Ou seja, em alguns aspectos, quarenta anos se passaram e parece que nada mudou no Brasil…
♪ ALAGADOS
Os Paralamas Do Sucesso [Herbert Vianna, Bi Ribeiro, João Barone]
Abrindo o primeiro álbum da banda a abordar questões sociais e recorrendo ao reggae e influências africanas para criar um rock mais abrasileirado, Alagados, inspirada pelas realidades que Herbert observava no dia a dia dos moradores da Favela da Maré, Rio de Janeiro, representou um marco na sonoridade dos Paralamas Do Sucesso. Lembro de sempre ter gostado da música, mas só fui me dar conta de sua relevância tempos depois. Por aqueles dias, minhas preferidas do álbum Selvagem? eram mesmo Melô Do Marinheiro e a versão de Você, composta e originalmente gravada por Tim Maia.
♪ MELÔ DO MARINHEIRO
Os Paralamas Do Sucesso [Bi Ribeiro, João Barone]
Possivelmente a história mais engraçada dentre os lançamentos de 1986. Pena que na vida real nem sempre os gaiatos que se metem onde não deveriam entram pelo cano — e isto nada tem de engraçado!
♪ TODA FORMA DE PODER
Engenheiros Do Hawaii [Humberto Gessinger]
Nesses tempos em que qualquer assunto trivial vira motivo de polarizações daninhas, alguns grandes hits da segunda metade da década de 80, quando o Brasil acabara de sair de uma ditadura militar, são ótimos exemplos de que é perfeitamente possível usar a música para abordar questões políticas sem com isso ficar levantando bandeiras partidárias que só fazem aporrinhar os ouvidos do público. Defendo com unhas e dentes que as diversas formas de Arte têm um papel crucial na construção de sociedades justas, mas meu estômago fica enojado ao ver artistas que, ao invés de fomentarem o pensamento crítico, ficam explicitamente promovendo nomes específicos de pseudo-salvadores-da-pátria, quer de um extremo, quer de outro, como se suas músicas fossem palanques eleitorais ou, pior ainda, tribunais de acusação daqueles que não concordam com suas ideologias, a quem frequentemente rotulam de “pouco inteligentes”, só que com palavras bem menos polidas. Ironicamente, não percebem que também eles acabam soando como ditadores que nada dizem; apenas tentam, a todo custo, impor mais uma forma de poder.
À época não me atentava a essas questões, nem tinha ciência do rebuscamento lírico e musical de Toda Forma De Poder, muito menos da extensão do talento de Humberto Gessinger, mas me lembro de ver uma apresentação do grupo no programa de auditório que invadia grande parte das casas brasileiras nas tardes de sábado (artistas — e filhos — passam por cada perrengue!) e, talvez mais por intuição do que por escolha consciente, eleger aqueles rapazes como minha banda preferida de rock nacional. Mal sabia eu que aquilo que aos nove anos eu dizia sem plena compreensão muito em breve seria de fato uma das maiores verdades do meu universo musical. Embora hoje o posto de “preferidos” seja ocupado também por outros artistas igualmente talentosos, os Engenheiros do Hawaii logo se tornaram os grandes companheiros da minha adolescência e seu líder, tanto em carreira solo quanto em algumas parcerias, continua retratando meus reservados pensamentos e sentimentos em suas mais lindas canções. 🥹
♪ SEGURANÇA
Engenheiros Do Hawaii [Humberto Gessinger]
Para quem talvez imagine que a valorização excessiva de bens materiais é futilidade exclusiva dos dias de hoje, entre outras músicas da década de 80, lá estava o eu lírico de Segurança tentando alertar sua interlocutora de que um “bon vivant” valentão que ostentava as marcas luxuosas pelas quais seus olhos tanto brilhavam não seria capaz de lhe oferecer a verdadeira estabilidade da qual ela de fato precisava.
A título de curiosidade, a versão registrada no Longe Demais Das Capitais, primeiro álbum de estúdio da banda, chegou às rádios nacionais na verdade em 1987, mas ainda havia sido originalmente em 1985, com outro arranjo e letra parcialmente diferente, em Rock Grande do Sul, coletânea que reunia dez músicas de cinco bandas gaúchas que estavam surgindo naquele estado.
♪ TIMIDEZ
Biquíni Cavadão [Giorgio Moroder, Tom Whitlock]
Viver em um mundo imaginário tudo aquilo que os medos nos convencem a não realizar na vida real: assim funciona a mente dos tímidos. Quando chega nossa tão aguardada vez de colocar em prática as histórias que criamos em nossos pensamentos, a coragem vai embora, nos esquecemos dos poemas que escrevemos, das frases que ensaiamos, julgamos que não é o momento certo, nos encobrimos, nos disfarçamos, nos camuflamos, nos distraímos, nos desfazemos diante de quem nos faz sentir inibidos e preferimos deixar nossas maiores agonias guardadas dentro de nós.
Talvez pela atemporalidade do tema, essa é uma canção em cujos versos me enxergo sem associá-la a um único ano específico, mas a todo aquele período de pré-adolescência que vivi no final dos anos 80 (e que às vezes ainda hoje parece tão atual).
♪ TÉDIO
Biquíni Cavadão [Álvaro Birita, Bruno Gouveia, Miguel Flores, André Sheik]
Ah, o tédio! Eis aqui um sentimento que talvez fure a bolha da minha imensa birra com a irritante pergunta “quem nunca…?”. Em 99,9% dos casos, tenho vontade de responder: “eu”! Reconheço, no entanto, que é de fato difícil imaginar que algum indivíduo no mundo nunca tenha vivido um desses dias que parecem não ter fim e nada nos desperta o interesse, muito menos a vontade de tirar o pijama.
Tecnicamente falando, o primeiro sucesso do Biquíni Cavadão foi lançado como single em 4 de março de 1985. Mas, como aqueles eram outros tempos, em que ao invés de produzir faixas descartáveis a indústria fonográfica dava tempo para uma música marcar vidas antes de lançar outra, Tédio continuou popular em 1986, quando foi incluída em Cidades Em Torrentes, primeiro álbum da banda. Mas que importam os detalhes técnicos quando tantos anos depois esses versos ainda podem descrever tão bem alguns dias?
⚠️ IMPORTANTE!
Enquanto procurava confirmar se alguns dados técnicos estavam corretamente preservados pela minha memória, me deparei com um comentário afirmando que a música se trata de uma apologia ao suicídio…
[…1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20…, (…), …100…]
Pois bem! Outra característica marcante daquela época é que as pessoas não liam tudo pelas lentes do extremismo – o que significa que, dentre meus contemporâneos, particularmente nunca sequer ouvi falar de alguém que interpretasse o último verso dessa música como uma apologia ao ato de tirar a própria vida . Aos meus ouvidos – e ouso apostar que aos ouvidos de muitos, senão todos, da minha geração – é apenas como uma alusão hiperbólica a tal ato. Quem já viu pelo menos uma entrevista com a banda sabe que seus integrantes, ao contrário de muitos artistas cujas biografias são de fato marcadas por comportamentos autodestrutivos, prezam pela vida ao ponto de ressignificarem grandes sofrimentos (o que no caso do vocalista Bruno Gouveia inclui a perda do filho de apenas 2 anos e 10 meses de idade em um trágico acidente de helicóptero) e seguirem em plena atividade até os dias de hoje.
Feito este importante esclarecimento, para quem o verso realmente soe como mais do que um recurso literário para expressar a intensidade dos sentimentos do eu-lírico, é sempre bom lembrar que é possível encontrar ajuda através de profissionais especializados ou, na impossibilidade de recorrer a estes, através do Centro de Valorização da Vida (CVV), organização não governamental brasileira que, segundo seu website, desde 1962 oferece apoio emocional gratuito, sigiloso, livre de viés religioso, político-partidário ou empresarial. O atendimento está disponível pelo número 188 (24h) e-mail, chat, ou até memo presencialmente em algumas localidades do país.
♪ QUASE SEM QUERER
Legião Urbana [Dado Villa-Lobos, Renato Russo, Renato Rocha]
…e a propósito de tempo perdido, quarenta anos se passaram desde que Quase Sem Querer foi lançada e (não tão) de repente me pego aqui pensando em quantas chances desperdicei, e continuo insensatamente desperdiçando, por até hoje não ter internalizado que não preciso provar nada pra ninguém… Sem mais comentários. 🤐
♪ EDUARDO E MÔNICA
Legião Urbana [Renato Russo]
Embora “concebidos” no final dos anos 70, parcialmente inspirados em dois amigos reais de Renato Russo, só em 1986 nasceriam para todo o país Eduardo e Mônica, o casal fictício mais famoso do rock brasileiro. Aos meus platônicos ouvidos pré-adolescentes, aquela história soava apenas cômica. Aos meus desconfiados (e realistas) ouvidos adultos, por mais que defensores do convívio entre os opostos, só mesmo em ingênuas (e adoráveis) ficções tantas diferenças podem resultar em um final feliz!
Curiosidade: só anos mais tarde, quando conheci Brasília, fui saber que o tal camelo — que, obviamente, sempre me pareceu bizarro nas cenas que minha mente imaginava — não se tratava daquele animal tipicamente encontrado nas regiões desérticas, mas de uma (ora, vejam só!) simples bicicleta… 🚲 …e eis que “de repente” aquele verso passou a fazer sentido! 💡
♪ FRIENDS WILL BE FRIENDS
Queen [Freddie Mercury, John Deacon]
O relacionamento que mais prezo, cantado pela voz que considero a mais bonita de todos os tempos — simplesmente não tinha como ficar de fora dessa coletânea.
♪ SAY YOU, SAY ME
Lionel Richie [Lionel Richie]
Dentre as músicas que fizeram sucesso em 1986 das quais gosto minimamente, Say You, Say Me foi a que alcançou a melhor posição, segundo lugar, no ranking da Billboard das 100 músicas mais populares daquele mesmo ano, vindo a se tornar um dos maiores clássicos da carreira solo de Lionel Richie.
♪ SEM LIMITES PRA SONHAR (REACHING FOR THE INFINITE HEART)
Fábio Jr. [Mariano Pérez, Carlos Gómez, Rosa Girón, Cláudio Rabello, Jeremy Brock]
Participação especial: Bonnie Tyler
Unindo a suavidade da voz de Fábio Jr. à potência da voz de Bonnie Tyler, Sem Limites Pra Sonhar é o primeiro dueto cantado em dois idiomas, combinação que a partir de então eu aprendera a apreciar, que me lembro de ter ouvido. Amante de idiomas desde a tenra idade – em particular da língua inglesa, que me encanta tanto quanto o belíssimo Português – e notoriamente movida pela intensidade, é claro que eu me apaixonaria de imediato por aquela melodia que até hoje chacoalha minhas emoções.
PERIGO
Zizi Possi [Nico Rezende, Paulinho Lima]
Popularizados na voz de Zizi Possi e gravados nas minhas lembranças de 1986, os versos de Nico Rezende e Paulinho Lima, voltariam a musicar minha vida em 1994, quando uma queda por um colega que eu sabia ser “muita areia para o meu caminhãozinho” me fazia cantarolar mentalmente: “perigo é ter você perto dos olhos, mas longe do coração; perigo é ver você assim, sorrindo; isso é muita tentação”. Só quase no fim do ano soube que, para “coroar” de vez minha total falta de chances, o clima de romance estava rolando mesmo era entre ele e (obviamente!) a garota mais bonita e cobiçada do colégio – ninguém menos que minha melhor amiga à época! Acontece que, além de lindo, o rapaz era também um sujeito de sensibilidade e princípios raros. Na noite em que finalmente consumariam a atração mútua que sentiam, desconfiado do meu interesse fantasioso, ele preferiu ficar sozinho, aparentemente para não ferir meus sentimentos. Alguém conhece um homem (em particular, um jovem) desses nos dias de hoje?
♪ VOCÊ
Os Paralamas Do Sucesso [Tim Maia]
Uma das minhas músicas preferidas nos últimos anos da década de 80, a interpretação dos Paralamas do Sucesso para Você, clássico da discografia de Tim Maia, é um dos raríssimos exemplos de versões suaves das quais gosto tanto, quiçá até quase mais, do que suas intensas gravações originais.
♪ GOSTOSO DEMAIS
Maria Bethânia [Domiguinhos, Nando Cordel]
Uma das raras músicas das quais gosto na interpretação de uma das vozes mais consagradas do Brasil. (Eu e minha mania de mexer em caixas de marimbondos… 😬)
♪ DESEJOS E DELÍRIOS
Fábio Jr. [Lula Barbosa, Ana Lúcia Heringer, Rubens Alarcon]
Depois de toda a intensidade proporcionada por Sem Limites Pra Sonhar, uma típica balada romântica cai muito bem para simplesmente acalmar a respiração.
♪ VITORIOSA
Ivan Lins [Ivan Lins, Vitor Martins]
Uma das minhas três músicas preferidas do Ivan Lins, por ter sido incluída de uma famosa telenovela, Vitoriosa começou a fazer sucesso ainda em 1985, mas só em 1986 foi lançada como parte de um álbum.
♪ CHORANDO E CANTANDO
Geraldo Azevedo [Geraldo Azevedo, Fausto Nilo]
Talvez a música mais intensa da discografia de Geraldo Azevedo (não à toa, a minha preferida deste que é um dos artistas mais simpáticos com quem tive a sorte de trocar meia dúzia de palavras pessoalmente), Chorando E Cantando se tornou mais pessoal na minha vida a partir de meados da década de 90, últimos anos da minha adolescência e primeiros da minha juventude, quando ao ouvi-la eu me sentia como se estivesse de fato vivendo um amor tão forte quanto aquele descrito em seus versos.
📝
Eu sou um caso perdido! Lá vou eu cutucar o que deve ser provavelmente a maior caixa de maribondos já construída de fora a fora por toda a vasta extensão dos territórios brasileiros… 😬
Quem foi criança nos anos 80 em algum ponto desse imenso pedaço do planeta não teve como escapar de ter suas memórias de infância invadidas, em maior ou menor proporção, por músicas de um sujeito que (não consigo compreender por que cargas d’água!) é por aqui reverenciado como um “rei”. Só me resta saber rei do quê! Para os meus ouvidos, sua voz é absolutamente inexpressiva, para não dizer desagradável e, pior, quase sempre acompanhada por uma orquestração que só não perde para shows de restaurantes baratos de beira de estrada – o que me faz lembrar de uma de suas composições duvidosas, mas por ora deixemos essa quietinha em seu canto.
Dito isso, reconheço que pelo menos até meados dos anos 80 (ou seja, o álbum lançado em 1986 estava já no limite) o mais icônico cantor brasileiro foi um compositor de fato talentoso. Não muito tempo depois, no início dos anos 90, começaria o que chamo de “fase mulheres em série” — baixinhas, gordinhas,* madurinhas** e sei-lá-mais-o-quê. Nem vale a pena procurar saber porque a partir dali não era mais eu o caso que estaria irreversivelmente perdido…
Pois bem…
* Não me crucifiquem! Estou apenas usando exatamente a mesma palavra que está imortalizada em uma de suas composições. Reclamem com o “rei”! 👑
** Okay, essa eu confesso que peguei emprestada de uma canção também popular na década de 80 que afirmava que mulheres com mais de 30 – isso mesmo, trinta – anos já eram “maduras” (em bom português: velhas) demais para se namorar. 🤦🏻♀️
♪ DO FUNDO DO MEU CORAÇÃO
Roberto Carlos [Roberto Carlos, Erasmo Carlos]
Apesar de ser parte das minhas lembranças de 1986, somente dez anos mais tarde — primeiro na voz de Adriana Calcanhotto e logo depois em seu dueto com Erasmo Carlos — Do Fundo Do Meu Coração arrebataria o meu coração (soou brega, eu sei, mas não resisti a uma pequena homenagem ao “rei” 😬).
Em 1996, já começando a ter autonomia para pagar minhas próprias contas, me rendi à adesão de uma TV a cabo, uma espécie de precursora das hoje populares plataformas de streaming. Como eu previa, pela quase completa falta de interesse pelo universo televisivo, um ano depois estava cancelando minha assinatura. Entre as poucas atrações que fizeram aquele investimento valer a pena, no entanto, estava um show só com voz e violão que Adriana Calcanhotto fez em algum teatro que não sei qual era.
Todas as vezes que ouço essa música, mesmo que nessa gravação original de Roberto Carlos (que, admito, é uma de suas poucas composições que consigo suportar, até gostar moderadamente em sua própria voz), me lembro daquela apresentação que ainda tenho gravada em uma fita VHS “perdida” dentro de alguma caixa empoeirada. Quem sabe um dia desses eu a encontre, apesar de não ter mais onde reproduzir.
Somente naquele instante em que vi Adriana Calcanhotto se apropriando de cada palavra, até mesmo de cada silêncio, daqueles sentimentos ali expressados pelo eu-lírico como se estivesse genuinamente sentido toda a intensidade da dor contida naqueles versos me dei conta da profundidade e da beleza daquela canção que na minha infância havia sido ofuscada por uma espécie de, digamos, caixa que não fazia jus à joia que continha. Raríssimas vezes eu vi tanta emoção estampada na face de um artista! 🥹
Para meu deleite, ainda em 1996, Erasmo Carlos, possivelmente tão extasiado por aquele número quanto eu, teve a iluminação de regravar a música com a participação de Adriana em uma versão ainda mais impactante do que aquela da qual eu já gostava tanto àquela altura. O dueto de tirar o fôlego integra sua coletânea É Preciso Saber Viver e pode ser contemplado também em diversas das minhas playlists, com destaque para a inocente Roberto Carlos em conSerto. Sim, é isso mesmo: “conSerto”, com “S”. 😇
♪ AMOR PERFEITO
Roberto Carlos [Michael Sullivan, Paulo Massadas]
Talvez cientes de que, à semelhança de um certo rei, suas habilidades vocais não estão exatamente à altura de seus dons enquanto compositores, não raras vezes Michael Sullivan e Paulo Massadas tiveram a grandeza de confiar suas criações à interpretação de artistas verdadeiramente capacitados a revelar a beleza nelas escondida. Nem sempre acertaram o alvo. 😬
Apesar de já beirar o sofrível, apenas a título de “registro histórico” decidi manter a versão de Roberto Carlos (que, até onde é do meu conhecimento, é a primeira gravação dessa obra) nessa minha modesta homenagem aos lançamentos musicais em 1986. Confesso, no entanto, que uma das grandes frustações que carrego dentro de mim é a de também eu não ter os talentos necessários para recriar essa canção da forma como eu a imagino. Até gosto bastante da releitura do duo-meu-xodó Anavitória, mas ainda não ouço nela a força que leio nas entrelinhas de seus versos. Nas minhas produções mentais, Paulinho, ex-integrante do Roupa Nova covardemente arrancado de nós pelo vírus mais estúpido que já surgiu sobre a face da Terra, seria o escolhido para interpretar essa melodia com toda a potência que ela merece.
Na falta do saudoso Paulinho, deixo aqui um “bônus” que, creio eu, poucos conhecem: uma versão, em hebraico, que em 2009, quando eu ainda tinha algum contato com o idioma, esteve muito presente nos meus dias. Fora das vozes de Ana Caetano e Vitória Falcão, é a versão mais bonita que conheço até o momento. Infelizmente, não está disponível no Spotify e, para além de um MP3 perdido alguns gigabytes de arquivos que há anos tento em vão colocar em ordem, só encontrei em canais não oficiais naquela famosa plataforma de vídeos. O jeito é aproveitar para ouvir enquanto não é removida.
♪ LONELY IS THE NIGHT
Air Supply [Albert Hammond, Diane Warren
Outras baladas do Air Supply mexem bem mais com a pequena (para desapontamento do esposo) porção romântica do meu ser. Ainda assim, Lonely Is The Night fez considerável sucesso em 1986 e gosto dela o bastante para adicioná-la esta coletânea.
♪ QUANDO GIRA O MUNDO
Fábio Jr. [Rosa Girón, Cláudio Rabello]
O álbum é de 1985, mas o sucesso de Quando Gira O Mundo perdurou pelo ano seguinte nas rádios brasileiras e, no meu coração, para todo o sempre! Uma das minhas três músicas preferidas do Fábio Jr., esta é uma das canções que mais me transportam ao ano de 1986 – quando eu tinha por um dos meus habituais passatempos desenhar os elementos mencionados em seu refrão (o mundo, a estrela, a boca, o sol, a estrada) – e que chegam aos lugares mais profundos do meu ser. Para ouvir no volume máximo!
♪ SÓ PRO MEU PRAZER
Heróis Da Resistência [Leoni, Fabiana Kherlakian]
Com sua notável capacidade de fazer com que pessoas, digamos, excessivamente distraídas não percebam que suas melodias delicadas escondem histórias de comportamentos doentios, em 1986, no álbum de estreia do Heróis Da Resistência, grupo que fundou após sua tumultuada saída do Kid Abelha, Leoni nos presenteou com uma das mais belas canções já compostas sobre relacionamentos tóxicos.
YES
Tim Moore [Tim Moore]
Além de ser uma das faixas nessa playlist que mais me remetem ao ano de 1986, Yes é simplesmente uma das músicas mais sensuais já instaladas na minha memória!
Pena que o Spotify não consegue resolver de uma vez por todas as questões de direitos autorais que vira e mexe a deixam desabilitada na plataforma. 😕 Consola-me saber que ela pode ser encontrada em alguns outros canais, como este.
♪ MIRACLE OF LOVE
Eurythmics [Annie Lennox, David A. Stewart]
Uma envolvente balada versando sobre o poder do amor para curar tristezas escondidas sob um mundo de ilusões e entoada por uma das vozes femininas que mais me tiram o fôlego e encantam meus ouvidos.
♪ AVENTURA
Eduardo Dussek [Eduardo Dussek, Luiz Carlos Góes]
Apesar de mencionar um ambiente que eu jamais frequentaria e ousar equiparar uma bebida alcóolica pela qual tenho grande aversão (na verdade, quase todas) a brindes com champagne (franceses que não nos ouçam!), Aventura estará sempre entre as músicas mais sensuais que conheço. Aos meus ouvidos, e ao resto do meu corpo, é inegavelmente uma ótima trilha sonora para um jantar à luz de velas.
♪ LADY IN RED
Chris De Burgh [Chris De Burgh]
Talvez a música mais sensual dessa coletânea. Só é difícil saber porque a concorrência é forte!
♪ TRANSAS
Ritchie [Nico Rezende, Paulinho Lima]
Careta demais para alguns, ousada demais para outros: talvez essa seja uma boa síntese das impressões provocadas por Transas, composição de Nico Rezende e Paulinho Lima, que na voz de Ritchie se tornou um dos maiores sucessos nacionais de 1986.
Possivelmente por trazer logo em seu título uma palavra envolta em tabus, os ouvidos mais conservadores (e superficiais) da época se fecharam para a essência dos sentimentos expressados pelo eu lírico. Discussões sobre liberdade sexual à parte, fazendo justiça, o mérito da interpretação correta da letra ficou com os mais liberais, que entenderam que a canção não propunha uma apologia aos então “modernos” e descartáveis relacionamentos que valorizavam apenas o prazer físico, desprezando os sentimentos e a construção de vínculos sólidos entre as pessoas. Ao contrário, fazia uma crítica a tal comportamento. Basta ouvir com um pouquinho só de atenção para perceber que o personagem ali retratado sofre com a falta de diálogo, com as fugas, com o faz de conta que está satisfeito quando, na verdade, ele sabe que quer mais. Ou seja, está imerso em um profundo vazio emocional!
Alheios a tais controvérsias, meus ouvidos ainda quase angelicais só sabiam que aquela era uma das mais lindas melodias lançadas naquele ano. 🥰
Ao ouvir esse clássico dos anos 80 atualmente, não consigo deixar de pensar que a superficialidade observada nas relações íntimas daqueles dias agora dita também os laços que, pelo menos no universo ao meu redor, à época eram ainda amplamente incentivados e valorizados: as amizades. Com raríssimas exceções, simplesmente não se prioriza mais estar com um amigo, sequer fazer uma ligação em tempo real. As “conversas” são, quando muito, escritas ou gravadas em modernas mensagens de texto ou áudio, que o outro vai ler ou ouvir quando, exaurido pelo cansaço, tiver migalhas de atenção para dar. Os abraços, esses realmente não existem mais! A culpa cai sobre a falta de tempo resultante dos incontáveis afazeres dos tempos modernos. É curioso. Naqueles tempos já com cara de antigos tínhamos muito menos tecnologias (que segundo dizem, acredite quem quiser, são criadas para nos proporcionar mais… tempo!), mas fazíamos muito mais, nos relacionávamos muito mais, éramos muito mais. Hoje, é dos amigos que a gente (eu, ao menos) quer mais e finge (no meu caso, muito mal) que tanta modernidade nos satisfaz…
De todos os ângulos que observo, essa tal modernidade não me parece muito atraente… 🙄
▷ Embora a gravação original não esteja disponível no Spotify, a versão lançada por Ritchie no álbum Outra Vez (Ao Vivo No Estúdio) é bem próxima das minhas memórias de 1986.
♪ TAKE MY BREATH AWAY
Berlin [Giorgio Moroder, Tom Whitlock]
Para qualquer pessoa que já se entendia por gente em 1986, é difícil ouvir as primeiras notas dessa melodia sem imediatamente associá-las à imagem de um ator que – nunca entendi por que 🤷🏻♀️ – deixou milhares de mulheres, de pré-adolescentes a adultas, suspirando ao redor do mundo. Agora, por que Take My Breath Away se tornou um dos maiores clássicos das trilhas sonoras de filmes, isso é bem fácil de entender. Se a música em si não tirar o fôlego, uma noite embalada por ela certamente pode tirar!
♪ ENTRA E SAI DE AMOR
Altay Veloso [Altay Veloso]
Um contraste abismal separa duas das músicas mais marcantes de toda a minha infância: de um lado, a leve e ingênua Se Enamora, lançada pela Turma Do Balão Mágico em 1985; do outro, a intensa (será por que eu gostava gosto tanto? 😇) e sensualíssima Entra E Sai De Amor, que apesar de também lançada naquele mesmo ano como parte da trilha sonora de uma das telenovelas brasileiras mais icônicas de todos os tempos, continuaria a embalar por meses meu romance imaginário com o maior crush do então chamado “primário”, tornando-se assim “a” música mais presente no meu 1986.
“Mas isso não é música para crianças” — Uma parte de mim concorda e até se pergunta se eu permitiria que meus filhos a ouvissem. Outra parte argumenta que muitas das canções que faziam sucesso naquela época (e, na verdade, em qualquer época), incluindo várias presentes nessa coletânea, provavelmente não eram “músicas para crianças”, mas nem por isso nos tornamos adultos devassos, perversos e violentos (para não dizer assassinos) como tantos que hoje andam livres, leves e soltos por aí.
Sinceramente, mesmo sendo bem precoce em alguns aspectos, não me lembro de entender, e não creio que “meus coleguinhas” entendiam, o que significava “eu quero a sensação suprema dos mortais, o gozo insano e soberano dos animais” ou outros versos ainda menos explícitos a leituras infantis. Cortando para 2026, me recuso a dar exemplos de como tal desejo — que, quando consumado com respeito e afeto, é absolutamente saudável e inerente à natureza humana — é expressado nos lixos sonoros que fazem sucesso atualmente, sobre os quais não tenho o menor receio de afirmar que violentam ouvidos de qualquer idade infinitamente mais do que a mais liberal e ousada música daqueles tempos.
Portanto, sim, eu provavelmente deixaria que meus filhos ouvissem esta música (bem como todas as demais reunidas nessa playlist). Ela provoca na minha alma o mesmo efeito que a tal “sensação suprema dos mortais” provoca no meu corpo, com a vantagem de durar bem mais do que alguns breves segundos.
▷ A qualidade do áudio disponível no Spotify é absolutamente sofrível! Principalmente no primeiro minuto, parece uma mistura de fita cassete “mastigada” por um gravador estragado com aqueles chiados (dos quais algumas pessoas alegam sentir saudades 🤷🏻♀️) típicos dos discos de vinil. Desse ponto em diante, o sacrifício de ouvir essa parte pra lá de desleixada da gravação é compensado pelo êxtase que a música me proporciona. 🥹
▷ Para registro: que fique bem claro que essa é a única música desse artista da qual eu gosto. 🤐
♪ ALL I ASK OF YOU
Andrew Lloyd Weber, Sarah Brightman, Cliff Richard [Andrew Lloyd Weber, Charles Hart, Richard Stilgoe]
Felizmente, nem só de vilões são feitos os romances (e a vida real)! Em meio a todo o terror imposto pelo manipulador Fantasma, Christine se aquece e se acalma nos braços de Raoul, que promete ser o abrigo onde ela poderá se refugiar da escuridão, dos medos, do cárcere, das lágrimas, enfim, de todos os males por ela sofridos enquanto esteve física e emocionalmente em poder de seu algoz.
Nas minhas lembranças, o comovente dueto entre os personagens chegou aos meus ouvidos pela primeira vez no final dos anos 80, dignamente adaptado por Nelson Motta para a língua portuguesa e elegantemente interpretado por Verônica Sabino e Emílio Santiago.
Não demorou muito, no entanto, para que eu conhecesse o musical e, consequentemente, esta gravação de All I Ask Of You, que é a original, bem como outras versões. Por isto, em 1993, antes mesmo de ter meu primeiro CD player, já pedi que o álbum Till I Loved You, no qual Barbra Streisand fez seu registro desse clássico, fosse meu presente em uma daquelas então inevitáveis (afff! 🥱) “brincadeiras de amigo secreto” — e assim ganhei um dos meus três primeiros discos compactos. O álbum completo com a interpretação do elenco original, adquirido diretamente no Her Majesty’s Theatre quando lá assisti a peça em 2015, foi por sua vez um dos últimos itens adicionados à minha modesta coleção desses objetos hoje tidos por obsoletos, mas que ainda guardo carinhosamente mesmo em tempos de streaming.
♪ DEMAIS
Verônica Sabino [AJohn Lennon, Paul McCartney — Versão: Zé Rodrix, Miguel Paiva]
Dentre as músicas que me levam de volta para 1986, talvez esta seja a que me soa mais intensa. É uma daquelas melodias que parecem “cortar” minha alma e adentrar seus mais longínquos esconderijos. Quando a ouço, chego a sentir na pele o frio da chuva trazida por um vento tão forte quanto aquele que um dia levou e escondeu longe demais a pessoa com quem o eu lírico outrora fizera tantos planos. Chega a doer, mas, paradoxalmente, acolhe, acalenta e aquece meu coração.
[Às vezes a ignorância é uma benção! Só anos mais tarde eu viria a descobrir que se trata de uma versão para uma insossa música da mais superestimada banda de todos os tempos. Serve-me de algum consolo o fato de que o compositor principal, aquele que se achava mais importante do que Jesus Cristo, teve a (rara) lucidez de reconhecer ao menos que seu desejo de reinventar a si mesmo (ele próprio declarou ser uma tentativa de reescrever This Boy) resultou em uma de suas piores canções.]
De volta ao que de fato marcou intensamente aquele ano na minha vida, redimensionada pela brilhante releitura brasileira, Demais é um ótimo (e raro) exemplo de versões que são, sim, (infinitamente) melhores do que suas respectivas gravações originais.
♪ ROCK AND ROLL LULLABY
B.J. Thomas [Barry Mann, Cynthia Weil]
“Mas essa música é de 1972!” — Sim, mas quem é brasileiro sabe que por muitas décadas as programações de nossas rádios eram (não faço ideia se ainda são) em grande parte influenciadas pelas canções escolhidas para compor a trilha sonora das telenovelas transmitidas pela emissora que dominava as TVs de quase todos os lares do país. Se fosse tema de abertura, então, como foi o caso de Rock And Roll Lullaby, o sucesso era mais do que garantido; era estrondoso!
À época começando a dar meus primeiros e autodidatas passos no aprendizado da língua inglesa, ainda não compreendia tão bem o que dizia a letra da música internacional que mais indelevelmente ficou registrada nas minhas memórias afetivas de 1986. Só algum tempo depois, já conhecendo melhor o idioma, entendi que as palavras entoadas naquela melodia que tanto mexia comigo e tão intensamente marcava aquele período em que morava num modesto barracão no Setor Universitário narravam em parte a minha própria trajetória de vinda ao mundo.
Cronologicamente, ela já era dez anos mais velha do que a personagem principal da canção quando eu vim a existir em sua vida. Emocionalmente, era de fato apenas uma criança. Mesmo hoje, com os cabelos já desbotados, o rosto enrugado e o corpo fragilizado, ainda é. Tão só quanto a mãe do eu-lírico, fez o melhor que pôde para me dar o melhor que eu pudesse ter. Mas, por tudo que sofreu, compreensivelmente assustada, nunca quis, ou nunca conseguiu, crescer. Talvez por isto, os frágeis laços que ainda nos prendem são envoltos por uma solidão que vai muito além do desamparo que nos foi imposto: a solidão que nasceu e se agigantou entre nós, rompendo em incontáveis e irreparáveis pedaços o cordão que deveria ter nos unido não apenas por nove meses, mas pelo resto de nossas existências.
♪ MINHA VIDA
Lulu Santos [Lulu Santos]
Pouco conhecida, talvez até subestimada, em comparação a outras composições de Lulu Santos, como as populares Um Pro Outro e Casa, lançadas no álbum Lulu e também incluídas nesta playlist, Minha Vida é para mim uma das quatro músicas mais bonitas de toda sua discografia.
♪ TEMPO PERDIDO
Legião Urbana [Renato Russo]
“Todos os dias quando acordo” sinto cada vez mais pesado o inegável e assustador fato de que já não sou mais tão jovem e não tenho mais todo o tempo do mundo. Paradoxalmente, numa incurável teimosia de uma estupidez irreversível, além de todo o tempo que já perdi até aqui, continuo a desperdiçar o pouco tempo que ainda me resta. Ou seja, sou um caso também perdido! 🙄
♪ LONDON, LONDON
RPM [Caetano Veloso]
Apesar de todo impacto que o álbum Rádio Pirata Ao Vivo representou para a o rock nacional dos anos 80, sempre preferi ouvir a maioria esmagadora de todas as músicas que conheço em suas respectivas gravações originais de estúdio, livres dos assovios, palmas e gritos das plateias (às vezes, compreensivelmente) eufóricas. Dito isto, nos shows realizados no Anhembi em maio de 1986, além de seu repertório autoral, o RPM apresentou aos fãs ali presentes uma inédita releitura de London, London, cujo registro originalmente composto e lançado por Caetano Veloso enquanto esteve exilado no coração do Reino Unido eu conheceria somente cerca de quatro anos depois. Era tarde demais! Àquela altura, meus ouvidos já tinham se rendido aos teclados de Luiz Schiavon e à voz de Paulo Ricardo. Além de viajar no tempo, chego a suspirar quando ouço as primeiras notas dessa versão!
Um dia desses, em um dos raríssimos (e brevíssimos) momentos em que pude ficar um pouco só, aproveitei para soltar minha voz juntamente com a de Paulo Ricardo — crime pelo qual meus vizinhos deveriam ter me denunciado — e senti meus braços serem tomados por um arrepio! Naquele instante, essa letra que já me era tão familiar de repente se revelou um dos retratos mais fiéis não apenas do momento que estou vivendo, mas também de toda a minha vida.
De volta à minha terra natal depois de perambular por ruas de algumas cidades ao redor do mundo, inclusive da Londres que inspirou a canção, percebo que o sentimento de passar por suas paisagens como quem solitariamente apenas observa cenas do cotidiano sem pertencer de fato a nenhuma delas, de estar vivendo em um constante exílio, nunca me deixou. Talvez por isto, como que tentando encontrar um lugar onde minha alma seja acolhida, meus olhos continuem “procurando discos voadores no céu”. Afinal, para quem se sente como eu, talvez só mesmo um outro “planeta” pareça, enfim, um lar.
♪ DON’T GIVE UP
Peter Gabriel, Kate Bush [Peter Gabriel]
Tantos anos após seu lançamento, Don’t Give Up continua sendo uma daquelas músicas que, ao mesmo tempo em que chegam a doer, acalentam e encorajam a uma das missões mais difíceis que enfrentamos toda vez que despertamos do sono: não desistir quando, com os olhos abertos, nada aconteceu como tanto planejamos. Pode até ser que para alguns poucos afortunados a vida flua como em um comercial de margarina, mas creio que para a maioria das pessoas a densa mensagem emoldurada por essa delicada melodia é tão necessária que de fato poderia ser servida na primeira refeição de todas as manhãs.
Tendo entrado na minha vida em meados de 1996, quando finalmente conheci o álbum So na íntegra, nos últimos anos, enquanto estive no exílio de uma certa terra de temperaturas e pessoas geladas, essa canção que parece nos envolver quase como o forte e acolhedor abraço de um amigo voltou a me fazer fiel companhia nas vozes de David Archuleta e Libbie Linton. Talvez só então eu tenha percebido que um de seus versos em particular me define tão bem que eu poderia (e gostaria de) tê-lo escrito!
♪ MERCY STREET
Peter Gabriel [Peter Gabriel]
Quem me conhece mais de perto já me viu em um ou vários momentos às voltas com a intrigante, quiçá fascinante, relação direta que percebo entre beleza e tristeza, o que me traz o inevitável pensamento de que talvez por isso rimem tão perfeitamente. Nem é preciso um olhar tão atento para observar que muitos dos livros mais envolventes, das fotos mais impactantes, das pinturas mais emblemáticas e de quaisquer outras obras de grande destaque nas mais diversas expressões artísticas são, em variados formatos, belos registros de histórias inerentemente tristes. Com a música não poderia ser diferente, e Mercy Street é um perfeito exemplo dessa curiosa simbiose.
Entre as lembranças sonoras mais vívidas do início dos meus anos 90 está uma das composições mais complexas, mais bonitas e (parece-me que não por acaso) mais tristes não apenas de 1986, mas de toda a produção musical que eu particularmente conheço. Inspirada no poema 45 Mercy Street, de Anne Sexton, um dos ícones da poesia confessional estadunidense, a letra retrata a fragilidade, as lutas com os transtornos mentais, e a busca por acolhimento, redenção e paz da escritora que aos 45 anos acabou decidindo não mais esperar pela misericórdia que tanto desejava encontrar.
Pela sensibilidade poética de Peter Gabriel, seu destino é reescrito em um tom mais sereno: simbolizando a reconciliação com seu passado e o fim das angústias que tanto afligiram sua vida, Anne e seu pai, com quem tivera um conturbado relacionamento, estão juntos em um barco navegando pelas ondas do mar.
▷ Curiosidade: o característico triângulo da parte instrumental (que bem que poderia não estar ali perturbando meus pobres ouvidos) foi concebido e gravado pelo percussionista brasileiro Djalma Corrêa.
♪ TRUE COLORS
Cyndi Lauper [Tom Kelly, Billy Steinberg]
Ouvia essa música em 1986 já com a admiração de quem observa as cores de uma pintura — e para meu deleite, ao invés de se desbotarem, suas notas ficam cada vez mais vivas com o passar do tempo!
Confesso que meu lado carente já desejou em segredo que alguém de alguma forma dedicasse essa canção a mim. A vida dá suas voltas. Tenho por princípio tratar as pessoas como eu gostaria que me tratassem (claro que sempre considerando se elas julgariam ser bom para elas o que eu julgo ser bom para mim). Por isto, no início dos anos 2000, quando uma grande amiga estava fragilizada por dúvidas sobre seu próprio valor, assegurando-lhe que eu não me importaria se suas cores estivessem desbotadas, escrevi-lhe a letra de True Colors no verso da foto de uma exuberante rosa arco-íris. Assim, esse potente e, ao mesmo tempo, terno hino sobre amor incondicional imbativelmente imortalizado na voz de Cyndi Lauper tornou-se uma das músicas que compõem a trilha sonora da nossa amizade. ♡
♪ “ÍNDIOS”
Legião Urbana [Renato Russo]
Começando pelas aspas ao redor do título na grafia original (privilégio de quem tem o vinil), a riqueza lírica de uma das músicas mais complexas e emblemáticas da Legião Urbana, e que mais marcaram meu 1986, não cabe em condensadas palavras. Por isto, registro aqui apenas duas breves notas:
▷ Lembro-me dessa música praticamente todos os dias. Se em meados dos anos 80 Renato Russo, que reconhecia não ser a mais saudável das criaturas, achava que vivíamos em um mundo doente, sempre me pergunto o que ele teria a dizer sobre o mundo de hoje… 🤔
▷ Sem desmerecer a relevância dos aspectos sociais e históricos abordados em sua letra, para mim, de uma maneira muito particular, ao menos em partes, essa música é uma oração — e esse é um aspecto delicado demais para abordar nesse momento. Quem sabe um dia…
♪ ANDREA DORIA
Legião Urbana [Dado Villa-Lobos, Renato Russo, Marcelo Bonfá]
Quando cismei de criar a playlist #1 Brazil, com “a” minha música preferida de alguns artistas brasileiros, sabia que para alguns nomes tal escolha só seria possível mediante a adoção de um ou vários critérios de desempate; um deles era me ater somente às canções que se tornaram grandes sucessos populares. No caso da Legião Urbana, se não fosse por essa regra, a verdade é que pelo menos outras três composições estariam lado a lado com “Índios” dividindo a primeira posição do meu discreto podium particular.
Feito esse importantíssimo esclarecimento, fica óbvio que Andrea Doria é uma daquelas três músicas da banda que, embora pouco conhecidas pelo grande público, ressoam por tantos e tão secretos recantos da minha alma que diante delas só me resta calar a minha voz (ou descansar as minhas mãos). Mas, afinal, quem precisa de qualquer palavra minha mediante uma obra-prima de tamanha grandeza?
Não resisto, no entanto, a deixar aqui três curiosidades.
▷ Provando que não só de poluição sonora vivem meus conterrâneos, dez anos após o lançamento do álbum Dois, a cantora Maíra Lemos gravou uma versão de Andrea Doria que, para os meus ouvidos, embora não seja exatamente mais bonita do que a gravação original, é digna de uma “menção honrosa” e muito me fez companhia em 1996.
▷ Para quem porventura não saiba, o título é uma alusão ao SS Andrea Doria, luxuoso transatlântico italiano (por sua vez batizado em homenagem ao almirante Andrea Doria) que em 25 de julho de 1956 colidiu com o MS Stockholm, navio sueco igualmente suntuoso. Ou seja, Renato se refere ao acidente como uma metáfora para os sentimentos e ideais juvenis que, ao se chocarem com os obstáculos da vida adulta, acabam naufragando em um mar de profundas desilusões.
▷ Quase todas as vezes que a ouço, o diálogo que em seus versos presencio entre minhas versões adulta e criança deixa em meu rosto um quente rastro das mais lancinantes (e, paradoxalmente, acolhedoras) lágrimas, façanha esta que poucas canções têm a capacidade de conseguir provocar. 🥹
♪ BALADA DO LOUCO
Ney Matogrosso [Rita Lee, Arnaldo Baptista]
Enquanto montava essa coletânea, notei que a interpretação de Ney Matogrosso para o maior clássico dos Mutantes avançou para recônditos mais reservados dentro de mim, fazendo ecoar na minha mente um questionamento que não me lembro de ter formulado antes, ao menos não nesses termos.
Para a criança que eu era em 1986, essa era apenas uma bonita melodia cantada por um sujeito exótico que, fazendo jus à poesia fantasiosa nela inserida, parecia ter saído das páginas de um livro de contos de realismo fantástico. Na minha idade agora avançada, sem o pouco de ingenuidade que ainda me restava naquele início de vida, de repente um verso em particular soou mais alto aos meus ouvidos, intrigando e inquietando ainda mais meus já naturalmente alvoroçados devaneios: estará a paz na loucura? 🤔
Entusiasta das histórias literárias e talvez em defesa da minha própria anormalidade, precipitadamente conclui que talvez sim. Mas Anna Flores, sem hesitar nem por meio segundo, me assegurou que não.
Tamanha convicção até silenciou o que eu tolamente acreditava ser o grande argumento que estava prestes a defender: em meio a tantas desigualdades, misérias, fomes, doenças, injustiças, guerras, atrocidades, enfim, tantos males que a cada dia que passa parecem alargar e intensificar cada vez mais nossas já profundas feridas, não é mesmo mais feliz quem consegue se alienar de tais verdadeiros absurdos para acreditar em absurdos imaginários, como ser belo, capaz de voar, e até mesmo pensar ser Deus?
⚠️ Acontece que Anna é especialista em saúde mental. Ou seja, literalmente mestre doutora em tratar doenças consideradas por muitos o grande (e de fato diariamente crescente) mal do século. Por isto, sem diminuir a beleza e o valor das produções artísticas, fez questão de esclarecer que tal entendimento romantizado da loucura só faz algum sentido no poético universo da imaginação (onde aqueles dados a devaneios, como eu, gostam de viver, e nem por isso, confesso, nos sentimos exatamente em paz). Fora da ficção, além de não aliviar as dores, os transtornos mentais pesam ainda mais os fardos daqueles que os sofrem e devem, portanto, ser acompanhados de perto por profissionais gabaritados. ⚠️
Hoje* é aniversário de Anna e, no meu mundo de fantasias, eu gosto de pensar que, em seu mundo real, não apenas nesta, mas também em todas as outras datas, apesar de ter seus dias permeados por tantas loucuras, figuradas e literais, ela é verdadeiramente feliz…
*Essas pueris percepções foram de fato finalizadas em 18 de abril de 2026, o que teve um precioso valor simbólico para mim. ♡
♪ WHO WANTS TO LIVE FOREVER
Queen [Brian May]
No início dos anos noventa, quando minhas explorações musicais começavam a extrapolar o que era amplamente divulgado pelas programações dos grandes veículos de entretenimento, dei meu primeiro passo para conhecer um pouco mais de perto uma das bandas mais icônicas da história do rock mundial, cujo vocalista já me despertava a atenção pelo menos desde os meus cinco anos de idade. Apesar de sempre preferir ouvir álbuns inteiros, por conta dos recursos serem escassos, às vezes o jeito era recorrer às coletâneas. Por isto, em 1992 comprei Greatest Hits II, um dos primeiros discos da minha quase insignificante (salvo pelo valor afetivo) coleção de vinis, que à época já começavam a perder espaço para os então moderníssimos discos compactos, popularmente conhecidos como “CDs”.
Apesar de ali inserida por ser, como indicado no título, um dos grandes sucessos do grupo, uma das faixas daquela coletânea era ainda inédita aos meus ouvidos e me provocou emoções tão extraordinárias que ultrapassam o universo das palavras. Nas minhas memórias, foi naquele início da década de 90, no auge (se é que houve um) da angústia de saber que não me encaixo nos moldes ao meu redor e dos meus questionamentos sobre o valor e o sentido da vida, que me deparei com aquela deslumbrante obra de arte sonora que imediatamente me transportou a uma dimensão que eu sequer imaginava existir, e que para o resto dos meus dias continuaria a hipnotizar todos os meus sentidos.
Por refletir a essência dos sentimentos que, envoltos em uma das mais sublimes combinações de instrumentos e vozes já ecoadas sobre a Terra, estão indissociavelmente entranhados no mais íntimo do meu ser, Who Wants To Live Forever encerraria esta playlist — o que soaria como um último toque de magia nessa viagem a 1986, já que ela foi introduzida também pelo Queen. Mas aquele ano, como quem cuidadosamente esconde seus próprios truques, escolheria outra feliz coincidência para seu gran finale…
♪ FLORES EM VOCÊ
Ira! [Edgard Scandurra]
…e, como em todo bom número de ilusionismo, é sempre de onde a gente não espera que brota a mágica…
Apesar de ter musicado meus últimos anos da década de 80, somente em dezembro de 2024, quando comecei a reunir as faixas que compõem essa coletânea, fiquei encantada, e até um pouco assustada, ao me dar conta de que a canção que contém o arranjo de cordas provavelmente mais lindo do rock brasileiro* havia sido lançada em 1986, mesmo ano em que nascia Anna Flores — o bebê que 38 anos mais tarde viria a aliviar os pesos injApesar de ter musicado meus últimos anos da década de 80, somente em dezembro de 2024, quando comecei a reunir as faixas que compõem essa coletânea, fiquei encantada, e até um pouco assustada, ao me dar conta de que a canção que contém o arranjo de cordas provavelmente mais lindo do rock brasileiro* havia sido lançada em 1986, mesmo ano em que nascia Anna Flores — o bebê que 38 anos mais tarde viria a aliviar os pesos injustamente colocados sobre os ombros da criança que eu era então.ustamente colocados sobre os ombros da criança que eu era então.
Nossas trajetórias se encontraram em janeiro de 2024. De lá para cá, à medida que revisitamos as boas e más recordações de todo o meu passado, com a simplicidade e a leveza das delicadas flores que, refletindo sua essência, às vezes estão estampadas também em suas vestes, ela terna e pacientemente me ensina a viver o meu presente nessa existência efêmera demais para desperdiçar quem sou me perdendo ao redor de tudo e todos que me roubam de mim. Ela, por sua vez, me devolve a mim mesma.
*Neste vídeo, Edgard Scandurra revela o que o inspirou a compor a música e conta como o arranjo de cordas foi criado.
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Anna,
Se eu pudesse escolher, teríamos nos conhecido pelas profissões que preterimos para nos dedicarmos a outros propósitos. Nelas, você, engenheira, concretizaria os ambientes que eu, aos nove anos, amava arquitetar em páginas em branco que hoje recebem não as plantas baixas, mas as palavras que compulsivamente jorram das minhas mãos; ou, delirando ainda mais, quem sabe teríamos nos esbarrado em uma livraria, sala de aula, galeria de arte, um show de rock ou um concerto de piano — instrumento ao qual pertence minha mais ardente paixão e que tenho certeza que você dedilha com maestria.
Mas, caprichoso, quis o destino que nossas vidas se cruzassem por outros caminhos. Mediante a reviravolta que ele me pregou, o que mais me agrada nesse encontro que ele teve a generosidade de preservar é saber que, sendo personagens de cenários tão distintos, sua história é (assim percebo e desejo profundamente) tão mais feliz do que a de tantas pessoas de quem hoje você cuida com admiráveis dedicação, respeito e carinho; não porque você não experimente seus próprios dramas, mas por saber fazer com que traiçoeiros e afiados espinhos não sejam os protagonistas dos jardins por onde você passa.
Obrigada por aceitar caminhar, do alto dos seus elegantes saltos, em um solo tão acidentado e coberto de pétalas caídas e desbotadas; por redirecionar meus medrosos passos; por me permitir o privilégio de ter minhas feridas tratadas pelo seu olhar tão atento e gentil; por me acolher nos seus firmes e calorosos abraços; por ser parte dos raros sinais que me dão alguma esperança de que talvez nem tudo esteja perdido e de que a vida ainda vale a pena; por ressignificar tantas canções (você nem imagina quantas), cores, datas, memórias; e, sobretudo, por ornamentar minhas dores com as flores que eu vejo em você!
Feliz 40 (e muitos outros) anos!
Foram lançadas e/ou fizeram sucesso em 1986, mas são pouco relevantes para mim:
- Amanda — Boston
- Ana Bonita — Almir Sater [olha que essa eu tentei gostar, mas realmente não consegui 😬🤷🏻♀️]
- Emotion In Motion — Ric Ocasek
- Stuck With You — Huey Lewis & The News
- The Next Time I Fall In Love — Peter Cetera, Amy Grant
- Venus — Bananarama
Fizeram sucesso em 1986, mas ficaram fora dessa playlist por terem sido lançadas e se tornado importantes para mim em outros anos:
- Holding Back The Years — Simply Red
- Nikita — Elton John
- Stand By Me —Ben E. King
- The Captain Of Her Heart — Double
- Walk Of Life — Dire Straits
- Why Worry — Dire Straits
- Your Latest Trick — Dire Straits
- Your Love — The Outfield
