Tem muito barulho por aqui! Barulho de carro, ônibus, caminhão, moto grande, moto velha (não sei qual é pior), carro de propaganda. Barulho de pneu rodando na chuva, barulho de buzina, barulho de batida. Barulho de sirene de polícia, sirene de bombeiro, sirene de ambulância. Barulho de jogos. Barulho de ventos uivantes, barulho de trovão, barulho de mar. Barulho de furadeira, barulho de martelo, barulho de quebradeira, barulho de obra. Barulho de cortador de grama, barulho de aspirador de pó, barulho de ar condicionado, barulho de goteira, barulho de liquidificador, barulho de campainha, barulho de telefone, barulho de televisão, barulho de rádio, barulho de máquina de lavar, barulho de máquina de secar, barulho de pernilongo, barulho de despertador. Barulho de feira, barulho de torcida, barulho de briga, barulho de confusão, barulho de dor. Barulho de tiro. Barulho de tudo!
Gente não sabe ficar sem fazer barulho! Não bastasse todo o barulho do mundo, tem também o barulho de todo o falatório que as pessoas produzem. Elas falam demais! As pessoas sempre têm muito a dizer. Isto é, muito a falar; na verdade, pouco a dizer. Falam porque acham que têm sempre a última palavra sobre algum assunto. Falam porque pensam que os outros esperam respostas e até soluções prontas. Falam porque, enquanto falam, não precisam ouvir. (As pessoas têm verdadeiro pavor de ouvir, ouvir de verdade! É por isto que som de falatório tem muito, mas de conversa tem pouco, muito pouco. Para conversar é preciso saber ouvir – e raras são as pessoas que sabem ouvir. Saber ouvir não é propriedade dos ouvidos, mas do coração.) E as pessoas falam também porque, enquanto falam, não precisam encarar o que pode ser encontrado no som do silêncio, não precisam ouvir os próprios pensamentos. Falam para preencher os espaços vazios. Pode até não parecer, mas tem muito espaço vazio. Embora as pessoas quase sempre não percebam, só do que estão cheias mesmo é de espaços vazios. Por tudo isto fazem tanto barulho, para distrair a atenção, fazer o tempo passar mais rápido.
E foi numa tentativa de fazer o tempo passar mais rápido que num começo de noite fui rendida por uma surpresa. Era um momento tão difícil, tão delicado. Tantos valores estavam sendo questionados, tantas crenças sendo desconstruídas, tantas certezas se esvaindo como pó, tantas forças se revelando fracas, tantas expectativas sendo lançadas ao vento… Tudo parecia fora do lugar, sem sentido… Eu tinha um coração arrebentado… E, por mais que eu refletisse sobre tudo o que estava acontecendo (talvez fosse melhor dizer “por mais que eu remoesse aquela dor”), não conseguia encontrar respostas. É claro que eu queria uma resposta! Estava tão confusa, tão esgotada, que acabei cedendo, não sem uma certa resistência, a um convite para me distrair um pouco. Quem estava comigo sabia que eu precisava disso, precisava respirar um pouco de sopro de vida…
E ali estávamos nós… Enquanto aguardávamos pelo começo de um espetáculo, eu comia alguma coisa às pressas, ela apenas me acompanhava. E, mesmo estando ali para me distrair um pouco, acabei deixando escapar, como num ato falho, o maior medo que sentia naquele momento… Para minha total surpresa, nenhum comentário; apenas um olhar e um longo silêncio… Fazia tanto barulho ao redor, mas só o que eu ouvia era o seu silêncio. Como poderia ser? Eu já havia compartilhado aquele medo com outras pessoas antes. Todas tinham algo a dizer! Ela era a primeira pessoa – na verdade, a única – que não disse uma palavra sequer sobre o que eu acabara de confessar. Foi então que, pela primeira vez, eu senti toda a realidade e todo o horror daquele medo…
É tão difícil conseguir um momento de silêncio! Às vezes a gente até tenta, mas justo quando acha que vai conseguir, logo uma bomba explode, rompendo o que poderia ser o princípio de uma calmaria e levando embora toda a paz que mal se instalara. De tão acostumada que estava com tanto barulho, eu não estava preparada para aquele silêncio, não sabia o que fazer com ele. Na minha cabeça, tanta coisa se passou… O mundo parecia ter parado e eu não sabia para onde ir, não sabia o que fazer. Talvez até conhecesse um pouco do meu próprio silêncio, mas ouvir o silêncio do outro é diferente. Talvez eu mesma ainda não tivesse me dado conta de quão revelador pode ser o silêncio, de quantas coisas nele se escondem, de quantas coisas nele ficam muito mais claras e audíveis. Silêncios às vezes gritam tão alto que podem ensurdecer!
Eu tinha medo de não conseguir amar outra vez! Eu acreditava ter amado. Tudo era tão real, tão forte, tão intenso… De repente, ficou tudo tão insustentável… Mas será que se pode conjugar o verbo amar no passado? Sim, a língua permite, mas será que faz sentido? Há quem diga que amores vêm e vão, mas no fundo o que todo mundo quer mesmo é um amor para a vida inteira. E não é assim que é para ser o amor? Paciente, bondoso, sem invejas, sem vanglórias, sem maus tratos, sem interesses próprios, sem iras tolas, sem rancores, sem injustiças, sem ciúmes; tudo sofrendo, tudo crendo, tudo esperando, tudo suportando, sendo eterno, e, portanto, um só! É… No fundo, o que a gente quer mesmo acreditar é que só se ama uma vez. Mas “um só” é uma sentença tão cruel e tão implacável para quem acredita já ter vivido um amor, para quem é ainda tão jovem e não quer passar o resto da vida condenado à solidão, nem à lembrança de um sentimento que ficou preso no tempo… Seria mesmo o fim?
Tanto tempo se passou, tanta coisa mudou… Hoje experimento um sentimento diferente, sem a força de toda aquela intensidade, mas seguro, sereno, constante. Será que o que eu vivi antes não foi amor? Se foi, por que não resistiu a todas as intempéries, como se espera que o amor resista? Se foi, ou se não foi, haverá uma segunda chance? “Amores vêm e vão”, dizem alguns; “só se ama uma vez”, dizem outros. Como saber em quem acreditar? Haverá uma verdade absoluta? Será este tempo de agora um momento de reconstrução? Ou, quem sabe, um momento de construção? Será que é amor? E se não for, será que pode vir a ser algum dia? Quem tem a palavra final?
Tanto tempo se passou, tanta coisa mudou… E, noite após noite, durmo com esses barulhos…
O “diálogo” real foi assim:
— (…) Tenho muito medo de não amar outra vez…
— [um longo silêncio]
— [com tom de espanto, quase indignação] Você é a única pessoa até agora que não falou absolutamente nada quando eu disse que tenho medo de não amar outra vez… – o que faz com que, pela primeira vez, eu realmente tenha tanto medo…!
O resto é imaginação. (Ou não?)
▷ Dedicado, com carinho, a uma mulher extraordinariamente linda, que um dia, em um silêncio meu, se deparou, pela primeira vez, com a realidade e o horror do medo de não amar outra vez.
▷ Publicado originalmente em 4 de dezembro de 2009.
